segunda-feira, 5 de março de 2012

A gripe

A gripe mais fulminante que eu tive na vida me pegou numa véspera de equinócio, há um tempo. Digo isso porque estou gripado exatamente agora e a lembrança me veio à cabeça, como sempre me acontece desde então em semelhantes ocasiões.

No princípio eu não quis saber de médico ou equivalente. Lembrei do que me disse certa vez o próprio Aldous Huxley no seu "Também o Cisne Chora". Para ele, há três possibilidades sobre idas ao médico: quando a gente não tem nada; quando até temos uma doença qualquer, mas sararíamos com consulta ou sem; ou quando o problema é tão sério que não adianta procurar especialista nenhum.

No entanto, logo no segundo dia da gripe, cheguei a um ponto tal de degradação que deixei de lado toda a filosofia e decidi me consultar com o médico, que era uma médica, como pude descobrir assim que me chamou na sala de emergência.

Era uma doutora muito na flor da idade e, arrisquei deduzir, tinho visto da vida talvez quase tanto quanto eu ou um pouco mais. Fez uma expressão de profundo pesar quando entrei na sala, o que me levou a pensar que minha situação era mais crítica do que eu supunha.

Olhava para mim como se estivesse diante de um estudo de caso. Levantou-me o braço e interrogou as axilas, me fez botar a língua para fora algumas vezes, ouviu atentamente o coração, primeiro com o estetoscópio no peito, depois nas costas. Aferiu a pressão, mediu a temperatura, encarou os dois glóbulos oculares. Por fim, depois de meditar solenemente por alguns minutos, me fez a pergunta que, entendi pela entonação, seria decisiva para o diagnóstico.

- O sr. esteve no Congo recentemente?

Para minha infelicidade, nunca havia estado no Congo nem imediações em toda a minha vida até ali e nunca estive também depois. Minhas incursões geográficas limitavam-se, ao norte, pelo Maranhão e, ao sul, por Taubaté. Se bem que uma vez passei uma tarde na Alsácia, em sonho.

A doutora disse que era um resfriado. Recomendou repouso, receitou remédios e ressaltou que eu iria me restabelecer.

- A senhora se chama Renata?

- Sim - respondeu.

Nos dias que se seguiram fui lentamente sucumbindo ao muco e à letargia. Depois vieram os delírios. Em um deles eu passeava nu pelas florestas do Congo acompanhado dos nativos, que me adoravam, e de Renata, a doutora, também despidos. Em outro era o Aldous Huxley que aparecia bradando e sacudindo os punhos: "Traidor! Traidor!"

Mas a visão mais memorável daqueles dias foi a seguinte:

Eu já devia estar no vigésimo sétimo dia de delírio - não fazia a menor ideia do tempo transcorrido -, quando a porta do meu quarto se abriu, rangendo nos gonzos. Primeiro entrou uma luz branca muito intensa, que se refletiu em cada canto do cômodo e cegou minha visão por um instante. Depois, quando me acostumei à claridade, vi que atrás dela, ou melhor, emanando a luz, veio um homem dos seus trinta anos, barba comprida e cabelo desgrenhado, vestindo uma toga também branca, amarrada por um cordão na cintura, chinelos de tira de couro, estilo sertão, e um colar de flores havaiano no pescoço.

- Vítor...- ele me disse, sem precisar abrir a boca. Mesmo assim a voz dele ecoava pela casa inteira.

- Sim?

- Você tem cometido muitos pecados ultimamente, meu caro - sempre que ele falava era como se ligassem um amplificador, uma estrutura de comício dentro do quarto.

- É verdade - reconheci -, ainda que todos de pequena monta, se é que podemos dizer dessa maneira.

- Os pequenos desvios, praticados reiteradas vezes e tornados hábitos, são talvez os mais cruéis para nos tirar do caminho da virtude.

- Ai de mim! Eu sei! Olha aqui esses olhos. Não consigo chorar faz mais de quinze anos! E não foram poucas as tristezas. Não sei o que houve ao longo do tempo, mas quando dei por mim já não acreditava em mais nada, nem mesmo na virtude. Tamanha se tornou minha descrença que não me faz diferença ser digno ou pusilânime, e se ainda ajo com algum zelo por mim ou pelo mundo é mais pelo costume do que por convicção.

- Você fala como se tivesse descoberto a descrença e como se fosse o único a sofrer dela. Não seja assim tão vaidoso. Há muitos anos venho ouvindo as pessoas, com um especial interesse pelo que elas não dizem nem para si próprias (parece que se sentem à vontade em falar comigo). Posso lhe garantir: você está longe de ser um tipo tão exótico quanto pensa. Aliás, você é dos mais comuns exemplares da espécie, tanto que beira o óbvio. Perdoe se lhe decepciono.

-Imagina! Já faz tempo que não almejo nenhum tipo de singularidade - mesmo sabendo que esse é um objetivo singular. Na verdade, estou até contente com as suas palavras. Acho que estava mesmo precisando de uma conversa assim, sem vernizes. Minha impressão é que você realmente me entende e isso é bom. Às vezes não consigo expressar os meus pensamentos e, por mais que me esforce, minhas palavras não fazem sentido para as pessoas. Com você é diferente. Antes de eu falar você já me compreendeu. Parece que lê minha mente. Em que número estou pensando?

- Vinte e sete, mas não vim aqui para misticismos. Vim para te apresentar a questão por outro prisma. Descrer é muito fácil, ainda mais quando depositamos nossa fé - já fragilizada pelos equívocos que nos rodeiam desde o nascimento - nos objetos errados. Darei um exemplo.

Ele caminhou (flutuou) até a janela, abriu a cortina sem movimentar os braços, apontou para a linha do horizonte e me perguntou:

- Você acredita neste pôr-do-sol?

Era um fim de tarde azul-escuro, como acontece em março, com uma nesga de luz do sol ainda refletindo nas pesadas nuvens que cobriam partes do céu, mas não ele todo. Um vento leve trazia a umidade da chuva recente para dentro do quarto.

- Sim! Acredito! - respondi de pronto.

- E no sorriso das criancinhas? Acreditas?

- Sim! Claro!

- E na democracia, nas leis, no mercado, no trabalho, nas religiões, nos profetas, nos governos, nas autoridades, na sociedade, nos costumes, na tecnologia, no luxo, na fama? Acredita?

- Não! Mil vezes não!

Ele então sentou-se na cama ao meu lado.

- Você já havia entendido, mas não percebido de todo, meu caro. Deposite sua fé no lugar certo e esqueça as antigas crenças. O resto, deixe que a vida cuida.

- Tão simples, tão complicado! Como me livrar das antigas crenças, que eu nem sei se são minhas, se elas me espreitam em cada esquina? Sinto como se me fossem atiradas ao rosto sempre que eu tento escapar delas. Onde está a solução?

- Faça como eu. Relaxe.

Ele tirou solenemente o colar havaiano e o passou para o meu pescoço.

- Tome. Tudo que a Verdade quer é saracotear em nossas mentes. Não lhe imponha tantas defesas.

Após essas palavras, deu um sorriso mudo e dissipou-se na bruma que, misteriosamente, havia se formado naquele instante.

Quando acordei, encontrei uma seringa de benzentacil ao lado da cama. Eu mesmo me apliquei a injeção e no segundo seguinte estava totalmente curado, como se a gripe nunca tivesse existido. A primeira coisa que fiz foi correr para o computador e tentar anotar os detalhes da aparição e, principalmente, registrar cada palavra do que o havaiano me disse, porque haviam feito muito sentido para mim.

Mas quando comecei a escrever, percebi que o discurso dele já estava de tal forma incrustado na minha memória que eu não precisaria nunca mais relê-lo ou guardar uma cópia. Era como se aquelas ideias estivessem há muito misturadas nas minhas veias, esperando o momento de vir à tona. Deve ter sido a injeção, pensei.