sábado, 28 de abril de 2012

Um sábio conselho

Ainda no século passado, quando éramos crianças e usávamos sandálias, íamos muito à casa da minha avó, que ficava na beira de um brejo quase intocado pela civilização. O folclore da vizinhança, rico em personagens canhestros, chegava a nossos ouvidos o tempo todo, através das visitas que minha avó recebia ou dos comentários das minhas tias na mesa do lanche. Acabávamos nos impressionando além dos limites da sensatez com o que ouvíamos e aquilo gerava em nossas mentes elucubrações fantásticas, como costuma acontecer com garotos de seis ou sete anos quando ouvem as fofocas dos adultos.

De todos aqueles seres em torno de quem giravam as lendas do bairro - meretrizes, bruxas, tarados, loucos, macumbeiros, maridos infiéis, mendigos que foram ricos um dia, etc. - o que mais nos impressionava era um senhor de meia-idade, calvo no cimo mas não nas laterais, dono de um bigode ralo e uma barriga que estufava de leve a camiseta. Parecia o PC Farias, para dar um exemplo prosaico. Todas as tardes ele passava muitos minutos e até horas encostado em uma cerca do outro lado da rua, segurando um cachorro pequeno pela coleira. Ele e o cachorro, todo dia. Depois de algum tempo, sem que nada acontecesse para justificar uma mudança de planos, os dois se viravam e iam embora. O senhor não fazia barulho, não fazia questão de ser notado e apenas nos casos em que seria extrema deselegância manter-se calado - como quando alguém passava muito perto e era mister dar boa tarde - ele rompia o silêncio para dizer o que seria polido.

Nós, as crianças, quando estávamos entediados, íamos para a janela ver se o senhor e o cachorro já tinham aparecido no ponto habitual. Invariavelmente eles estavam lá. Foi assim por anos. Houve uma tarde em que fazia frio e o cachorro e o dono surgiram usando cachecol,  para deleite de todos nós. Eu, apesar de também me divertir com tanta excentricidade, ficava me perguntando se era mesmo o caso de rir dele.

As tias e as vizinhas comentavam muito a respeito do senhor. Diziam que ele nunca havia se casado, que sempre tinha sido um solitário, que não falava nem com o pequeno cachorro. Relatos mais detalhados mencionavam uma certa contenda mal resolvida quando ele era jovem e ainda não tinha a barriga, e outros, esses mais raros, falavam de uma situação bem obscura envolvendo o senhor, que os adultos apenas sussurravam diante dos pequenos.

Nada, nem a velada antipartia dos vizinhos com seus hábitos, mudava a disposição daquele homem de toda tarde plantar-se na frente da mesma cerca. Ele, aliás, parecia indiferente a tudo que o rodeasse, inclusive a si mesmo.

Um dia, quando eu já estava maior, pulei a janela e decidi, movido por uma curiosidade e talvez um fascínio que eu não sabia explicar, segui-lo no caminho de volta para casa. Ele e o cachorro caminhavam devagar e eu ia atrás, o mais discretamente possível. Na entrada do lote onde morava, ele se voltou para trás, olhou para mim e fez um gesto me convidando a entrar. Eu aceitei e fomos entrando. Na sala de visitas, o senhor perguntou se eu aceitava chá, foi até o samovar e voltou com xícaras para nós dois e biscoitos.

- Que animal você gostaria de ser? - foi a primeira coisa que ele me disse.

- Um cavalo selvagem com pintas - respondi.

- Ah. Boa escolha. Ótima.

Nossa conversa girou em torno de temas assim, agradáveis para mim e, pelo que notei, também para ele. Meu interlocutor não era dos mais eloquentes nem se permitia expressar com o mínimo de emoção, como se qualquer coisa física ou imaterial o impedisse de imprimir vida às palavras ou aos gestos. Mesmo assim pareceu se entreter com nossos assuntos, fez perguntas e me ouviu com atenção.

Foi só no final, perto da hora de ir embora, que eu vi uma luz realmente brilhar em seu olhar, seu rosto realmente assumir um ânimo de ser vivo, suas palavras carregarem alguma energia.A transformação começou quando eu levantei pra me despedir:

- Tchau. E obrigado pelo chá. Era boldo?

- Escute, amigo - ele assumiu um ar acalorado de repente, como se o que tivesse para dizer fosse muito penoso, mas ao mesmo tempo absolutamente necessário. - Escute, você é um bom garoto. Talvez você não saiba e nunca se dê conta disso, mas é um bom garoto. Prometa-me uma coisa. Nunca se afeiçoe a nenhum personagem de romance russo. Prometa! Nunca se afeiçoe! Nunca! Os russos! Prometa... em nome de nossa amizade.

Ele não conseguiu terminar de falar, atrapalhado pelas lágrimas que fazia esforço para conter. Era um momento tão solene e o pedido tão sincero - e ao mesmo tempo eu sabia que quem falava não era um homem comum, mas daqueles raros que haviam visto quase todas as faces da vida -, que não tive dúvida em selar imediatamente a promessa.

- Obrigado, feliz amigo!- celebrava ele enquanto nos apertávamos efusivamente aos mãos.

Logo minha avó se mudou da beira do brejo. O tempo passou, me tornei um adolescente e, depois, adulto. Nunca mais, depois daquele dia, vi o homem outra vez. Contudo, nos anos que se seguiram, me mantive firme à promessa. De início não havia nem mesmo a remota possibilidade de quebrá-la, porque toda minha literatura se resumia aos mais vendidos da sessão infanto-juvenil e, entre eles, não havia nenhum russo ou coisa parecida. Depois passei aos franceses e por muito tempo, deslumbrado com os poetas que chamam o Mar de La Mer, achei que tivesse encontrado minha turma definitiva. Mas parece que também em termos de arte a mente humana vive uma eterna caminhada e, quando me vi na estante dos alemães, sabia que a Rússia já era inevitável.

Minha incursão pelos romances russos começou por livros de personagens tísicos e autores epilépticos. Não havia uma página que não exalasse agonia e sofreguidão, que o sol e toda fonte de luz não estivessem como que eternamente embaçados por uma fuligem insistente. Ali não dava para se apaixonar por personagem nenhum, quando muito todo sentimento que conseguia devotar a eles era de condolências e pesar.

Graças à influência daqueles livros, fui construindo na imaginação uma Rússia terrível e ao mesmo tempo sedutora. Uma terra sem colorido, mas rica como nenhuma outra em matizes de cinza. Lar dos pensadores que enxergaram a vida em toda sua crueza e abraçaram o desamparo da condição humana não com pessimismo, mas com a serena resignação de que a tristeza e a dor, assim como o inverno, também devem ter suas razões de existir.

Passei anos tendo carinho por aqueles romances, mas não por nenhum personagem específico. Parecia que a obra, de tão intensa, acabava sobrepujando seus elementos quando tomados individualmente. Ou talvez eu não estivesse preparado para aqueles sujeitos sôfregos e desesperados que às vezes me causavam mal-estar quase físico.

Até que, não faz muito tempo, comecei o Guerra e Paz. Já nas primeiras páginas me vi diante de algo incomum nos romances russos anteriores: nesgas de alegria. Claro que a dor está presente, e também a guerra, a injustiça, lágrimas. De vez em quando, no entanto, numa página perdida entre duzentas outras, entre um tiro de canhão e um retinir de baionetas, longe dos ecos dos galopes de cavalos e dos cantos dos soldados, um vestido de bainha longa farfalhava na escada, à medida que pés descalços subiam depressa, não por urgênica ou pressa, mas pelo contentamento com a vida que a dona do vestido não conseguia conter, mesmo quando entregue às atividades mais simples.

Chamava-se, como logo descobri, Natalia Rostova. Natacha. Antes eu nunca tivesse lido esse nome! A vida teria seguido seu curso, razoável e previsível, como sempre deveria ter sido. Mas como obrigar alguém a continuar vivendo na caverna depois de ter visto, nem que seja de relance, a luz do sol? No entanto esse alguém deve saber que, da mesma forma que se é prisioneiro na caverna, é muito fácil tornar-se cativo também da luz!

Natacha, quando sorria ou quando chorava, o fazia sem cálculo algum. Não havia intermediários entre seus sentimentos e suas manifestações. Encantava-se com facilidade por qualquer bobagem e demonstrava tanto entusiasmo que levava as pessoas a se interessarem não pela bobagem, mas pelo mecanismo angelical com que operava sua mente. Sua beleza era descompromissada. Se tinha alguma extavagância, era por meninice e jamais por afetação. Cantava desafinada e achava graça disso. Quando a vida a levou a encarar situações obscuras completamente alheias à sua natureza, pôs mãos à obra, entregou-se com justiça e altruísmo aos deveres que seu coração lhe impunha, mas nem por isso perdeu a leveza e a graça, pelo contrário.

Por esses motivos e por outros que eu não conseguiria descrever, dada a natureza etérea e intangível do fascínio que ela desperta, agora procuro Natacha em todas mulheres que vejo. Também em sonho tenho empreendido essa busca, quase todas as noites. Porém, só consigo realmente sentir a presença dela quando vou ao livro. O problema é que, dois meses depois de começar a ler, eu já estou prestes a terminar e aí não sei mais o que vai ser. Não sei mais onde encontrar Natacha.

Outro dia voltei ao antigo bairro da minha avó, depois de todos esses anos, em busca de respostas. A casa do velho solitário não estava mais lá, deu lugar a um empreendimento imobiliário. Perguntei para as pessoas na rua se não sabiam de um senhor que passava as tardes parado naquele ponto da calçada com um cachorrinho, mas ninguém fazia ideia de quem eu estava falando. Um menino e seus amigos, que jogavam bola, exatamente como eu, meus irmãos e primos há tantos anos, sugeriram que eu procurasse o velho no facebook.

Neste exato momento em que escrevo este texto, estou com o último tomo do Guerra e Paz na cabeceira ao meu lado e anseio por lê-lo, porque quero saber o que o destino reserva a cada um na história. Sei que faltei com a minha promessa de não me apegar a personagens de romances russos e, especialmente no caso da Natacha, estou ciente de que vou sofrer as consequências. Depois das próximas quinhentas ou seiscentas páginas eu nunca mais vou vê-la, nunca mais vou ouvir seu sorriso travesso, entusiasmado, e isso não será fácil.

Agora compreendo que o vizinho solitário da minha avó também tinha topado com a Natacha em algum momento da vida dele. Pobre homem. Ele viu nos meus olhos que eu era suscetível ao mesmo encanto e quis me prevenir. Mas ele também devia saber que, para o marujo, quando o mar chama, não há alertas que o façam permanecer em terra firme. Talvez o velho já tenha, naquela época, se apiedado de mim, sabendo o que viria pela frente.

Mas aquele homem, em grande parte sábio, deixou de apreender um ponto fundamental e era isso que eu gostaria de lhe dizer, se voltássemos a nos encontrar. A paixão pelo ideal e irrealizável apenas serve para mascarar a verdade de que a vida, em todos os aspectos, não sai como gostaríamos. Também as pessoas ao nosso redor não correspondem à nossa idealização e, muitas delas, partem de nosso convívio antes do que desejávamos. Isso não é bom nem ruim, é a vida, que, desde que foi inventada, não comporta outro funcionamento. Para que negar a vida e aprisionar-se numa névoa de utopia fadada a nunca se materializar?

É o que a própria Natacha diria. Talvez ela ainda diga isso nas páginas restantes. Seria muita afinidade de pensamento. Mais: talvez ela ainda se mostre fã de futebol (primeira divisão e segunda), de filmes épicos, entusiasta de passeios na natureza, de comer pizza no domingo à noite, de procurar música desconhecida na internet, de conversar sobre qualquer trivialidade, de... É preciso ser forte.