sábado, 26 de maio de 2012

Uma causa

                                                                        
                      ag.ofuror(maio/2012)                       


Amar o belo é fácil. Amar o belo é matemática e, por isso, não é amor, mas contastação. Amor mesmo floresce diante do sublime, que pode estar no belo ou no feio.

A razão não possui ferramentas para apreender o sublime. Ele não tem variáveis passíveis de cálculo nem nunca apresentou um padrão de comportamento. Não pertence à categoria dos fenômenos naturais. Também não é uma construção humana, social. Está mais chegado para a esfera mística.

A cada um o subime se apresenta de uma maneira, sem marcar horário. De repente uma janela se abre, no meio do nada, e ele dá as caras. Essa janela pode ser um sorriso, um raio de luz num ângulo certo, uma palavra qualquer. Na hora dos damos conta de que, a partir dali, não perceberemos mais a vida da mesma maneira.

A grande mágica é esta: opera-se na alma uma transformação que permite ver brilho nos mesmos objetos opacos de antes.

Quando, se desculpando, o poeta disse que beleza era fundamental, teria feito mais justiça se tivesse dito que fundamental era o encanto. A beleza é 2D - sabemos que além dela há ainda uma outra dimensão.

Deixar-se encantar está ao alcance de todos. Não deixa de ser uma forma de sabedoria. É o que permite respirar o ar do jardim que fica atrás do meu prédio como se estivesse experimentando os perfumes das florestas mais vistosas. O homem tem a capacidade de expandir-se em profundas sensações e sentimentos mesmo diante do mais simples estímulo. Talvez nossa maior dádiva.

Digo isso acima porque na semana que passou fiquei me perguntando pelo que valeria a pena lutar e, por um momento, me veio à cabeça que a busca pelo que é belo, em todas as situações, seria a que mais se justificaria. Mas logo mudei de ideia. Acho que o encanto, nas pequenas coisas, é a causa que vale a luta. Não deixar que esmoreça nem que seja sufocado por concepções afogueadas da vida. No final, ele torna tudo aos nossos olhos - e espírito - mais bonito ainda.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

"Achei que fosse um jaburu"



Criança indígena repele invasão de dragão na fronteira.
"Ele pulou e disse: 'deixa comigo'", afirma a mãe.


Florestas do Norte, segunda-feira. O Brasil tem um novo herói nacional. Em todas as rodas de conversa do país, só se fala nele. Não é diferente nos jornais e na internet. A própria presidente fez questão de nomeá-lo para o panteão da pátria. Mas a glória repentina parece não ter mudado nada na vida do kaiowá Katatuia, 9 anos.

A reportagem foi encontrá-lo em sua aldeia, no meio da selva. Katatuia estava brincando com os colegas. Ele ainda não tinha se manifestado publicamente depois de ter rechaçado, sozinho, a invasão de um dragão ao território nacional. Quando foi convidado para dar entrevista, respondeu:

- Imprensa? Não falo.

Então a mãe lhe disse que se tratava da equipe de 'O Furor' e ele deu um tapinha na testa:

- Por que não me avisaram antes? Sentem-se! Aceitam chá?

A conversa transcorreu nos termos mais agradáveis:

- Como você se sente, agora que é um herói nacional?

- Francamente, não vejo a situação sob esse prisma. Herói de que nação, para início de debate? Aquilo que costumávamos chamar de Brasil foi sublimado já faz certo tempo. Não há mais países, no sentido clássico do termo. Se é bom ou ruim, não cabe aqui discutir. As nações foram substituídas pelos conglomerados e esses não pertencem a pátria nenhuma, a não ser à grande mãe-mercado. As fronteiras de um país já não determinam uma barreira da qual podemos dizer "a partir daqui as pessoas têm uma cultura própria, pensamentos únicos, um modo de ver a vida etc.". Virou tudo uma geleia geral. Um balcão de negócios que passa aqui, em frente a este rio, e passa também por Vladvstok, pela Sibéria, por todo o lugar. Então não sou herói de nação nenhuma. Em primeiro lugar, porque não sou um herói. Em segundo, porque não há nação.

- Mas você lutou sozinho contra um dragão...

- Achei que fosse um jaburu. Vi de relance, contra o sol, e pelo farfalhar das asas deduzi do que se tratava. Me enganei. Só quando eu já estava no meio do meu pulo, percebi que o animal era grande demais para ser um jaburu e que eram fortes as chances de ser um dragão, suspeita que se confirmou quando ele botou fogo pela boca. Se eu soubesse desde o início que era um dragão, teria ficado quieto. Não sou de criar confusão. E, acima de tudo, não quero interferir no trilho dos acontecimentos. A História tem vontade própria, que independe do arbítrio do indivíduo isolado. Não tenho a pretensão, tão comum entre nós, de achar que meus gestos isolados vão mudar um centímetro que seja o curso da História. Quem se deixa levar por essa ilusão, abdica da única esfera onde podemos aplicar nosso livre-arbítrio, que é no restritíssimo (e ao mesmo tempo infinito) círculo de nossa vida. Interferir no resto, em qualquer ponto que não seja nós mesmos, é buscar uma maneira de se aprisionar.

- Fama? Dinheiro?

- Ar livre. Lua cheia.

- Seu discurso pode soar romântico, idealista e até hipócrita.

- As pessoas estão propensas a acreditar no lado ruim umas das outras, mas tratam a virtude como se fosse uma utopia. Se eu disser que pretendo me tornar assaltante, todos vão entender e alguns até se apiedarão. Mas se eu defendo o desapego material, a simplicidade como modo de vida, o amor desinteressado, muitos me apontarão o dedo: "Falsário!" Não há o que fazer diante dessa intolerância natural da sociedade com relação a filosofias libertadoras. As pessoas condenam o vício, mas só acreditam nele. Não cabe a mim doutrinar ninguém nem tentar impor meu pensamento. Muito se fala em eternizar uma obra, para que nosso nome atravesse os séculos, mas eu não pretendo eternizar nada, já que eu mesmo sou perecível. Não quero durar mais do que eu mesmo.

- Para terminar: esse seu pulo sobre o rio, registrado pela foto que agora roda o país, tem despertado muita curiosidade. Como você faz para ter tanta impulsão?

- Boa pergunta. Não é difícil. Com treinamento todo mundo consegue. Veja bem: você flexiona este joelho aqui, estica a outra perna, inclina o peito para trás -junto com a cabeça - e...

Nisso, a título de demonstração, ele deu um salto, deslocou uma enorme massa de vento e, zunindo, foi se afastando do chão. A cada segundo ia ficando mais longe de nós até que não passou de um ponto indefinido no céu sem nuvens.

- Agora só à noite - sorriu, orgulhosa, a mãe.