sábado, 30 de junho de 2012

Rio + 20, alguns dias depois

Algo anda errado com nossa democracia quando, na cúpula dos povos, todos eles, dos neozelandeses aos pataxós, concordam sobre a urgência de se preservar a natureza, e os líderes mundiais assinam documento em que a impressão final é de dizerem "calma lá gente, devagar com o andor".Ou nossos representantes não nos representam ou têm uma inteligência superior capaz de perceber que as prioridades da plebe não são tão relevantes assim. E, desse modo, nos defendem de nós mesmos.

 Claro que um debate tão apaixonado como o dos últimos dias não poderia deixar de produzir curiosas distorções. Para muitas pessoas, inclusive aquelas que aparecem na TV e prescrevem regras e costumes, o cidadão comum pode ajudar a preservar o meio ambiente desligando a torneira enquanto escova os dentes e deixando de ir de carro para o trabalho, por exemplo. Nada contra a adoção de boas práticas, mas o foco do problema está longe de simples ajustes do cotidiano, assim como não dá para culpar o metano produzido pelos herbívoros pelo agravamento do efeito estufa. O desvio do foco, mais uma vez, dirige esforços para o ponto que menos tem a ver com história.

Ou melhor, nós pessoas comuns, temos, sim, responsabilidade pelo esgotamento do planeta. Não no tocante ao nossos hábitos pontuais, tomados isoladamente, como deixar o computador o dia inteiro na tomada, mas no que diz respeito ao modelo de vida que corroboramos na sociedade.

Entramos, de muito bom grado, no jogo do consumismo avassalador. Ajudamos a construir uma ordem econômica em que o desenvolvimento se sustenta apenas na base da produção e consumo, um puxando o outro, cada vez mais acelerados e desesperados. Não pode haver períodos de parcimônia, desaceleração, nem pensar: produção e consumo sempre mais ferozes, mais alucinantes.

 Não precisamos de trocar de celular uma vez por ano, no entanto é o que fazemos. Nem de carro, aparelhos eletrônicos, não precisamos da quantidade de pares de sapato que temos. Há bem pouco tempo, nossos avós se casavam e compravam uma geladeira para durar a vida inteira - e geralmente durava. Hoje, isso é impensável. Por que não pode ser assim? O cruel dessa atual etapa do nosso consumismo insano é que ele nos faz pensar que é intrínseco à natureza humana. Como se não pudéssemos resistir a uma vitrine ou novidade eletrônica e que comprar nos faz felizes.

 Muitos defendem nosso modelo econômico. "Sou livre para comprar o que eu quiser." É a democracia do consumidor. Na prática, tirania do mercado. Certamente há também um aspecto psicológico nisso tudo, que faz que as pessoas descontem no consumo desenfreado pendências de outras áreas. Mas por que adotar a via do consumismo e não a do auto-conhecimento, por exemplo? Talvez isso soe um disparate. Estamos treinados para acreditar no que o homem tem de ruim (materialismo) e descrer no que tem de bom (equilíbrio).

 As consequências práticas do desenvolvimento baseado na escalada da produção e consumo já se veem na natureza, nem é preciso esforço. O planeta não aguenta mais bancar nossa voracidade. E olha que grande parte dos países, os subdesenvolvidos, e também parcela significante dos emergentes, ainda não ingressaram de vez na festa do consumo. O dia que isso acontecer, não se sabe se haverá recursos naturais suficientes. 

O que leva a um dilema (talvez o maior de nosso tempo, do ponto de vista econômico): se os países pobres se tornarem desenvolvidos, o planeta não suportará a pressão. Para o planeta continuar se mantendo, é preciso que os pobres permaneçam pobres, os miseráveis, miseráveis, os famintos, famintos. Isso porque o crescimento econômico que conhecemos está atrelado exclusivamente à produção e ao consumo cada vez mais acelerados de todo tipo de bens. Se há uma pausa no processo, como agora na Europa, a sociedade já sente os efeitos.Aqui no Brasil, para a economia rodar e os ganhos sociais aumentarem, o governo estimula a indústria poluidora, drena rios, asfalta a mata, investe pesado no petróleo (e ainda fala nas reservas do pré-sal como a salvação da pátria!)

É preciso sobrecarregar o planeta para que a totalidade de seus habitantes tenha uma vida confortável? Para que tenhamos o que comer e o que vestir, é necessário derrubar a floresta? Mas aí não teremos o que respirar!

Entramos então no que pode ser o mais próximo possível da solução e que não apareceu - pelo menos não como destaque - nas discussões durante a Rio + 20. A chave do problema pode estar na reformulação do modo de vida da sociedade, passando por uma nova concepção da roda movedora da economia.

É tempo de substituir o consumismo como pilar do desenvolvimento. Isso implica em adoção, inclusive e sem exagero, de novas filosofias pessoais. Entender que o acúmulo de bens que hoje promovemos em nossas vidas não é primordial para a condição humana. Que é possível viver confortavelmente sem muitos dos luxos que hoje consideramos imprescindíveis. Parece impossível, mas esse capitalismo que conhecemos não tem muito mais de 150 anos, se tanto. A sociedade já sobreviveu sem ele. Se não havia o conforto que temos hoje, se as condições materiais eram mais precárias, isso apenas nos lança um desafio, que já está passando da hora da humanidade se impor ( e que é perfeitamente plausível, dado os avanços que obtivemos ao longos dos séculos): unir conforto material, justiça social e preservação do planeta.

sábado, 9 de junho de 2012

A invasão dos ipês roxos

Até noite passada, eram galhos secos pelos quais ninguém dava nada. Enquanto dormiam os homens, a natureza abria sua caixa de ferramentas. Não sabemos que propósito oculto há nisso, nem as forças que o movem, sabemos apenas que está em curso a invasão dos ipês roxos.








Poetas, enamorados, menestréis, atentai ao cronograma. Há ainda muito pela frente. Se os ipês roxos vêm com o frio, o calor e a seca trazem os amarelos. Por fim, quando surgem as primeiras chuvas, eles vestem-se de branco, como se tudo fosse uma preparação para o matrimônio.  

sexta-feira, 8 de junho de 2012

No Salão das Estalactites

Recentemente estive no Salão das Estalactites. Ambiente suntuoso e enigmático, como sempre. Acabei encontrando o Guardião da Ampulheta. Ele estava com o velho chapéu de lavrador chinês e o mesmo sorrisinho mal disfarçado no canto da boca. Apontou para a ampulheta, que ficava num criado-mudo ao seu lado, depois para mim, e disse:

- Já não és um garoto. Não tens mais a eternidade pela frente.

Eu bem sabia:

- Mas eu ainda não fiz nada na vida! Será que não dá pra retroceder um pouco? Virar a ampulheta, jogar um pouco de areia para o outro lado?

- Nada mais impossível. É por isso que estou aqui. Esse é meu trabalho.

No entanto, notei que o Guardião amiúde se distraía. Amiúde...

Dias depois, voltei para o Salão das Estalactites. Dessa vez, não quis me fazer notar. Detrás de uma pilastra, fiquei observando. Até que o Guardião foi ao banheiro.

Disparei com ligeireza nos pés, feito lépido marsupial, sem fazer barulho nem levantar suspeita. Virei a ampulheta. Um segundo, dois, dez... Dava para ouvir o Guardião no banheiro. Só mais um pouco, pensei. Demore só mais um pouco.

No calor do momento, não sei quanto tempo passou. Sei que, ao ouvir a descarga e os passos do Guardião ficando mais próximos, desvirei a ampulheta, para que não notassem meu delito, e corri para a saída.

Ao longo das semanas seguintes, me atormentava não saber quanto tempo eu havia ganhado de sobrevida. A questão me parecia crucial, até para que pudesse fazer planos a longo prazo. Ou melhor, longuíssimo, de acordo com meus anseios.

Calhou de, numa tarde, depois do trabalho, ter encontrado justamente o Guardião da Ampulheta na fila da padaria. Ele me cumprimentou cordialmente:

- Sabemos o que você fez no outro dia. Foi muito esperto.

- Mas... como você descobriu?

- Vimos nas câmeras do circuito interno. Por causa do meu deslize, agora me colocaram para fazer hora extra no Salão das Estalagmites, no subsolo.

- Desculpe. Eu não queria...

- Tudo bem. No seu lugar, quem não faria o mesmo?

Apertamos as mãos e fomos nos despedindo.

- A propósito - gritou ele quando já tínhamos nos separado -, você ganhou três dias. Aproveite!

Voltando para casa,  a luz do sol baixa batendo no meu rosto, fiquei pensando no que daria para fazer em três dias. Pensei também que mesmo em três décadas é possível não se fazer nada da vida e que, no fundo, o tempo é o de menos. Mas bem que esses diazinhos poderiam cair no feriado, concluí.