terça-feira, 21 de agosto de 2012

Duas Infinitudes (Montanhas de Marte)

No princípio este texto se chamaria Montanhas de Marte, traindo talvez uma fagulha de lirismo cósmico que habita o íntimo do autor e de vez em quando sobe à superfície. Os traços gerais do que vai abaixo foram, portanto, pensados para existir sob esse título. Mas aí o outro título - sem que houvesse sido feito nenhum esforço para tanto - surgiu à mente, com a insolência dos penetras, e pareceu mais correto. Uma correção pendente para a sobriedade, mas sem desleixar da atmosfera onírica que aqui se pretende tecer. Entre as duas alternativas, optou-se por abrigar ambas. O que antes poderia ser um dilema, agora virou solução. Tudo isso é dito para deixar claro que, doravante, o autor não vai mais tolher seus impulsos criativos, ainda mais quando eles são frutos do livre e puro fluir da consciência.

Aliás, o autor não vai mais tolher impulso algum, criativo ou não.

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Neste exato momento em que a vida aqui na Terra transcorre mais ou menos como sempre, um robô da Nasa palmilha o terreno de Marte, a milhões de quilômetros daqui (em linha reta). Em primeiro lugar, que ideia confusa os marcianos deverão ter dos homens se tomarem o robô por um de nós! Mas não só isso. O robô tira fotos de lá, que podemos ver na internet. Foi assim que me encantei com as montanhas de Marte. Talvez ninguém ainda tenha cantado as belezas naturais daquele planeta em prosa e verso, o que faz de mim um pioneiro em potencial. Marte, com suas montanhas, me parece um planeta para os contemplativos, para os filósofos, para os bucólicos. Enfim, um planeta para o exercício do pastoreio, como diriam os árcades.  

No entanto, a grande questão talvez seja outra. Talvez tenha chegado a hora de começarmos a refletir mais detidamente sobre o Universo, agora que começamos a nos permitir algumas intimidades em seu antes indevassável terreno.

Por exemplo: seria ele mesmo infinito, como dizem? A ideia de que algo seja infinito não soa muito lógica. Como pode, não acabar nunca e, pior, ainda estar sempre em expansão? Expansão para onde, se não tem limites? É como dizer que algo cresce para além dos muros, mas sem haver os muros. A infinitude do Universo afronta nossa frágil razão, esta é que é a verdade.

Aliás, o Universo inteiro é uma afronta à mente humana. Um deboche, claro, mas dirigido a nós por quem? E para quê? Inúmeros corpos celestes que bailam no nada, originados pelo nada e que um dia podem explodir a si e aos vizinhos, mas que podem também cumprir expediente ali para todo o sempre. Óbvio que nada disso foi construído para ser compreendido por nossa razão. A intenção, desde o início, foi nos manter ignorantes e curiosos. Para quê?, ecoa a pergunta. Se o objetivo não fosse nos instilar a inquietação, não teriam colocado o céu logo acima da gente, ainda mais com estrelas piscando.

Mas quando se destacam na reflexão estas duas grandezas, o Universo e a mente humana, é que o mistério começa a fazer algum sentido. Falamos em infinitude do Universo de um jeito como se não houvesse correspondência para ela em nenhum outro campo conhecido. É aí que está o erro! Também a mente humana é infinita, e também ela se expande continuadamente, dentro de limite algum, que parece ser o nosso ingênuo crânio, mas não é! Quando se passa a assumir a infinitude da mente humana, a do Universo já não parece mais absurda! Ou, pelo menos, agora temos um par de infinitudes absurdas, o que já torna o fenômeno 100% menos raro do que antes!

Ninguém é menos astronauta ou desbravador que o robô da Nasa se nunca for à lua, à Ásia ou a Goiânia, desde que mantenha expedições frequentes para dentro de si. Então a pessoa se verá diante de uma infinitude não de todo estranha, mas ainda insondável na totalidade. Uma profundeza da qual apreendemos alguns ecos, reflexos, mas da qual nunca conseguiremos distinguir a silhueta. Uma quimera que sentimos ser parte da gente, e também de tudo ao redor.

Digamos que o homem tenha diante de si, a princípio, dois mistérios insolucionáveis: o seu próprio (seu Universo interior) e o geral (o Universo de fato). Quando nos relacionamos com alguém, e à medida que nos tornamos mais íntimos desse alguém, surge novo mistério, que é o Universo do outro. Portanto, a Nasa manda robôs para desvendar o espaço, nós mandamos robôs para nos desvendar e, por fim, mandamos robôs para desvendar aqueles que nos são próximos. Alguma chance de que, em algumas dessas missões, consigamos nos mover um ínfimo centímetro que seja na direção de solucionar o insondável? Nada mais improvável.

Se estamos fadados à eterna ignorância no que diz respeito ao mistério das infinitudes, talvez haja nisso um recado, consciente ou acidental. Uma mensagem de que a graça não está em desvendar a incógnita, mas em saber se deixar fascinar por ela. Pensando assim, faz sentido que ao nosso redor haja, naturalmente, inúmeros elementos que favoreçam o fascínio pelos universos e nenhum que leve à compreensão deles. Uma estrela e um sorriso encantam, só que não esgotam o mistério por trás daqueles que os geraram.

Nesse sentido, não poderia haver melhor legado da missão a Marte do que as fotos das montanhas. É ali que nosso olhar vai se deter e pensar que, seja lá quais forem os fins (e a origem) de tudo que existe, nos cabe celebrar que os meios sejam, de forma tão contundente, um convite ao encantamento.