domingo, 2 de setembro de 2012

Noites de setembro

Essas noites que têm feito não são quentes nem frias, não são abafadas nem arejadas. Nem agrestes, nem orvalhadas. São noites cálidas, como um hálito de fada. São noites, mas também são um espírito, a junção do espírito do céu e das estrelas, com os espíritos das coisas, das plantas, dos animais e das pessoas. Não posso dizer "participo da noite", já que sou um pedaço dela. "Somos a noite", é o certo a dizer. O ar que respiro tem um pouco de mim, um pouco das estrelas, um pouco das pessoas ao redor.

A lua cheia nasce incandescente. Quando chega setembro, nossa cidade já está há quase 80 dias sem chuva. Esse ar seco às vezes pinta de fogo certos elementos no céu. Hoje é a lua. Lá do alto, ela canta uma melodia aos nossos corações que nos faz pensar, por um instante, se realmente nos importamos com as coisas certas. A música ecoa. Procuro alguém mais que esteja ouvindo.

As noites de setembro prenunciam a primavera. Parece que a terra toda se prepara, em arrumação. Os seres se ouriçam e fazem combinações uns com os outros, que o ar leva dos remetentes aos destinatários. As flores de um ramo conspiram com as do ramo vizinho: "Desabrochemos?" As cigarras, embaixo da terra, combinam a hora de emergir, todas ao mesmo tempo: "Ao primeiro sinal de chuva, marcado!" Acho que é por isso que o ar fica perfumado, porque está cheio de mensagens das plantas (que são os poléns e outras emanações), e mensagens dos bichos, e mensagens dos corações. Dá para sentir o cheiro delas e também os sussurros.    

Nessa arrumação para a primavera, nós também estamos envolvidos, sem saber. Daí por que não dá para segurar um sorriso ou evitar a sensação de plenitude diante de situações aparentemente pequenas, como se permitir caminhar na noite. É por isso também que um sopro da brisa que bate no rosto parece encher nosso peito de poesias e nos fazer enxergar belezas antes improváveis. A primavera se faz também na alma e floresce arbustos ressequidos, dos quais tínhamos esquecido.

Quando vejo o título "Sonhos de Uma Noite de Verão", acho que era de noites como as de agora que o autor falava. Como nenhuma outra, elas são propícias para o sonho. São também propícias para a realidade.