terça-feira, 30 de outubro de 2012

Calor

No 301, há uma vizinha. Não é desajeitada. Raramente acontece de eu encontrá-la no elevador, mas foi o caso nesta noite. Sobre esse singular episódio, apenas uma das alternativas abaixo corresponde à realidade. Marque a correta:

A)

Eu: Oi.
Vizinha: Oi.
Eu: Calor, né?
Vizinha: Nem me fale! Resolvi descer para ver se me refrescava um pouco.
Eu: Olha! Eu também! Coincidência...
Vizinha: Eu sou muito calorenta, sabe?
Eu: Só assim mesmo para vizinhos se encontrarem. Engraçado. Quase nunca a gente se vê. Nem parece que moramos no mesmo préd...
Vizinha: Você pode assoprar um pouco a minha nuca?
Eu: Quê?
Vizinha: Assopra aqui. Não adiantou eu ter colocado essa blusa decotada de alcinhas finas. Estou derretendo. Desculpa se estiver abusando de você.
Eu: Não! Claro. Que isso. Desculpa eu. Assopro aqui?
Vizinha: Era para ser na nuca. Mas pode ser aí também.

B)

Eu: Oi.
Vizinha: Oi.
Eu: Calor, né?
Vizinha: Pra falar a verdade, só comecei a sentir calor agora.
Eu: Agora? Neste instante?
Vizinha: Sim. Quando você entrou.
Eu: Ah...
Vizinha: É você quem toca violão à noite? Eu escuto do meu apartamento.
Eu: Sou eu. Fico treinando.
Vizinha: Adoro sua versão para Atirei o Pau no Gato.
Eu: É a Cavalgada da Valquírias, na verdade.
Vizinha: Adoraria poder ouvir in loco. Acho violão tão estimulante...
Eu: Bem, talvez a gente pudesse... Por que você apertou o botão de parar o elevador?
Vizinha: Ups, não percebi...
Eu: E por que você está virando a câmera do circuito interno pro outro lado?

C)

Eu:  Boa noite.
Vizinha: Boa noite.
Eu: Calor, né?
Vizinha: Bastante.
Vizinha ao celular: Oi, amor. Já estou descendo. Beijo.
Eu: Você vai para o térreo?
Vizinha: Garagem. Obrigada.
Eu, depois de alguns segundos: Até mais.
Vizinha: Até.




*Resposta: letra A.  

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Seres da primavera

Carineta fasciculata sobre o tronco. 28 de setembro de 2012.
 
Pela janela, entram no meu quarto
seres da primavera
Não pedem licença nem observam etiqueta
porque sabem-se bem-vindos
A seu modo dizem boa noite
e a seu modo se instalam
Os de asas, as farfalham
Os de antenas, as balouçam
E cantam os que são de cantar
(nem que seja apenas uma forma lírica
de propor para acasalar)
Quando eles chegam, trazem junto
não sei explicar direito
mas é como se me visitasse também
o que há de etéreo no ar
E me dá vontade de cumprimentá-los, um a um
De contar para eles as minhas histórias
mesmo sabendo que já viram muitas e parecidas
Mas é que o espírito se inspira
e quer conversar

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

No jardim das abstrações humanas

No jardim das abstrações humanas, passeavam mais ou menos juntos a Justiça, a Democracia, o Capitalismo e o Amor. Fazia uma agradável tarde.

A Justiça, que caminhava e gesticulava com sobriedade, vestia uma toga simples, sorria de maneira contida e preferia a conversa formal. Era uma senhora na idade e no espírito e gostava de assim transparecer.

A Democracia era bem mais jovem. Esbelta, trajava um vestido fino que lhe caía muito bem até os joelhos. Andava empertigada e adotava um arzinho de insolência típico das mulheres que se acham imprescindíveis para o seu tempo. Parece também que não comia carne vermelha e lia os clássicos.

O Capitalismo usava fraque, cartola e um monóculo. Tinha bigodes.

O Amor andava nu.

Logo ele se adiantou no passeio e ficou a uma distância razoável dos demais, que aproveitaram para puxar a conversa que há muito desejavam ter.

- Às vezes eu penso qual é a razão de o Amor anda nu - disse a Justiça, muito concentrada.

O Capitalismo tinha a resposta pronta:

- Porque é um vagabundo que não trabalha e nunca juntou nada nem para comprar uma roupa! Por isso!

- Não sei - ponderou a Justiça. Ele deve ter sido roubado.

- Nem uma coisa, nem outra. O mais provável é que nenhuma política pública de acesso ao vestuário tenha chegado até a camada que ele ocupa. É grave isso. Precisamos resolver - disse a Democracia, muito orgulhosa de si.

Debateram ainda por mais alguns minutos, até que o Amor, que tinha deduzido o tema da conversa e, além disso, estava meio bêbado, caminhou até o grupo e disse, para que todos no jardim pudessem ouvir:

- Nudez! Oh! Por que não simplesmente dizer: pelado? Cavalheiros, como podeis ver, eu ando pelado! Mas não me tomem por excêntrico ou lunático. A causa é muito mais prosaica. Sou apenas um rapaz à moda antiga. No início do jardim, quando éramos não muitos frequentadores por aqui, não havia roupas ainda. Também não havia os discursos empolados, os debates científicos, as doutrinas libertadoras, essa catraca de identificação biométrica na entrada. Não havia, não havia. Naqueles tempos, senhores, em dias de calor como hoje, podíamos nadar na fonte sem que ninguém nos olhasse com ares de reprovação e despejasse sobre nós mil exortações sobre a moral. Aliás, é o que vou fazer agora.

O Amor então, inflamado e meio trôpego, pulou na fonte que ficava no meio do jardim. Todos os caminhantes olharam com muito desprezo aquela cena. Exceto a Democracia, que sentiu um calorzinho estranho a lhe percorrer o corpo e um arrepio na nuca. Ela esteve a um passo de se livrar do vestido e cair na água. Conteve-se apenas porque domingo é dia de eleições.