terça-feira, 19 de novembro de 2013

Balada do Druida


Se eu fosse um druida louco
e às vezes sou
Coletasse no cimo das montanhas
o orvalho de certa flor
E misturasse na matéria dos meus sonhos
em noites de alegria
Ainda assim o efeito não seria
Tão abrasador
Quanto o que sai dos seus olhos
Domingo de manhã
Na hora que o sol bate
E de dentro você reflete
Um Universo que ninguém
Nunca decifrou

sábado, 22 de junho de 2013

Trincheiras

Meu amor,
Quantas noites
Quanto protesto
Quanto chumbo em carabina
Esse mel indigesto
Mas a fumaça descortina
Vira e mexe um tal clima
que meu coração modesto
Ambiciona dizer mais

(Impedido talvez
Por esta timidez
E uma bomba de gás)

Sabe, meu amor
A manhã fará luzir
Nas trincheiras do porvir
Seja lá o que for
Vão o rei e o povo todo
companheiros de novo
Tomar o desjejum
(Segue a vida, segue a luta
E a paz de cada um)

Quando tudo terminar
Vou capinar um hectare
Revolver a terra pura
Viver a literatura
que nos dá natureza
Travar com as criaturas
Cada bosque/profundezas
As conversas sem sentido
em que o homem precavido
nota a sabedoria

Mudança valeria
Se o ser olhasse a si
Sem vaidade ou euforia
Mas humilde no intento:
A gente só muda o mundo
Quando muda
O que tem por dentro.

domingo, 28 de abril de 2013

Trato

- Você é escritor?
- Como adivinhou?
- Pela caveira na escrivaninha. E a pena ao lado do tinteiro.
- Poderia ser apenas um louco.
- É o que você está dizendo.
- É o que você está ouvindo.
- Eu vim pelo anúncio no jornal.
- Qual deles?
- "Melhoro sua monografia."
- Desculpe. Apenas o serviço do outro anúncio está disponível.
- Qual seja?
- "Faço sua monografia inteira."
- Ótimo! Me serve também.
- Veio ao lugar certo. Qual é a tese?
- "Com quantos paus se faz uma canoa - uma outra versão."
- Compreendo. Uma das minhas áreas.
- Imaginei.
- Além disso, sou afeito a revisionismos.
- Só espero que meu prazo exíguo não seja empecilho.
- Não será.
- Tenho até quinta-feira.
- Vou lhe cobrar o mesmo que do último cliente que me deu dois dias para o serviço.
- E qual foi o preço?
- Trabalhar comigo para todo o sempre.
- Ah, isso explica a caveira na escrivaninha.
- Não. Isso explica a pena.
- Era um pavão?
- Passista. Foi tudo que sobrou da fantasia. Lá se vão anos.
- Bonita?
- Sabia amar.
- Essas são as melhores.
- As mais raras. Sobretudo, amava as coisas simples. E sorria.
- Não duvido.
- Então é só assinar aqui, garoto, e temos um trato.
- Não sei. Talvez eu queira desistir.
- Bem, nesse caso...
- Entendi. Isso sim explica a caveira.
- É o que você está dizendo.
- É o que estou ouvindo.  


 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O coaxar dos seres

Era noite, e era o bastante
que estivesse vivo e respirasse
ouvisse o coaxar dos seres
e soubesse que sob a lua
havia amantes

Só faltava chover
Opa, começou
Ouça as gotas na calçada
Não precisa pedir nada
que a vida já não dê



domingo, 24 de fevereiro de 2013

Da série "Diálogos que poderiam ser"

No tapete vermelho do Oscar:

- Vejam só quem está aqui do meu lado! E que belo terno! De quem é? Um Gucci?

- Não, é do meu pai. Nosso tamanho é o mesmo. Peguei emprestado ontem, mal deu tempo de passar direito. Geralmente eu pego o do meu irmão, mas ele ia a um casamento hoje e precisava do terno também.

- Uma família de bom gosto, sem dúvida! Agora, conte para o pessoal que nos assiste em casa, o que são esses brilhos prateados na lapela, algum tipo de spray de cristais?

- Naftalina, parece. Mas à noite acho que ninguém vê.

- E os sapatos? Italianos, se não me engano?

- Não sei. São os mesmos do ano passado, quase não uso sapato. Só em formatura, casamento e agora, na festa do Oscar, isso dá umas duas vezes por semestre, e olhe lá. No dia-a-dia eu vou de chinelo para o estúdio e lá coloco os calçados do figurino. Isso quando não é filme de gladiador, porque ai fico direto com minha sandália de casa mesmo.

- E combinam perfeitamente com os óculos! Prada?

-Tudótica. Ou então Óticas Diniz, já não lembro bem. Mas é uma das duas, com certeza.

- Agora, conta pra gente quem faz esse cabelo? Como é que chega nesse efeito?

- Quem faz meu cabelo?

- É. Quem é o responsável pelo penteado.

- Ah, sim. Fui eu mesmo. Me penteio sozinho desde os 6, 7. Esse efeito que você deve estar falando é porque ainda não secou direito. Eu sempre deixo um pouco de neutrox sem enxaguar, para ficar mais fácil de abaixar os fios arrepiados.

- Fica aí a dica! Muito obrigado por participar com a gente e aproveite a festa. Estamos torcendo por você, uma atuação tão sensível num filme tão tocante, profundo...

- Quê isso! É só mais um blockbuster e eu quase não atuei. Na maior parte das cenas, as de explosões, era o dublê, e quando eu tinha uma fala era só de uma frase, porque aí, pá!, entravam a trilha sonora e os tiros. Cinemão mesmo.    

Palavras

A história de cada pessoa, a todo tempo, e, em consequência, a história da humanidade, é de uma busca constante por algo que nos palpita desde crianças na garganta ou mais fundo, pede para ser expressado e ganhar forma, mas, salvo em raríssimos e breves instantes, não sabemos como fazê-lo. Dá para perceber uma força muito viva dentro de nós, que, por instinto de sobrevivência e perpetuação, precisa transbordar, ganhar o mundo, encontrar-se com as forças das outras pessoas e assim cumprir seus ciclos. Só não sei se esse pólen que carregamos conosco se chama alma, espírito, se é uma porção de Deus residente em cada homem, se é a natureza ou se é a vida.

O que parece claro é que, desde o início, os primeiros homens já não eram indiferentes a essa necessidade, que assim dá a entender que é mesmo parte integrante da espécie. Uma necessidade nivelada com a de se alimentar e matar a sede, e não apenas um capricho para momentos em que a subsistência estivesse garantida. 

Os feitos do engenho humano, em sua grande maioria, são esforços para abrir as sendas pelas quais o que temos para expressar possa fluir de nós para fora. Alguns exemplos são óbvios, como a música e a dança. No entanto há esse propósito mesmo em atividades corriqueiras, o trabalho diário, por exemplo. Radicalizando um pouco, acho que eu colocaria até a guerra nessa mesma categoria, porque também ela pode ser uma manifestação, muito estranha, é verdade, do que buscamos externar.

Mas a invenção da qual eu quero falar é a palavra. Nenhuma outra criação dos homens teve o intuito mais claro de sanar de uma vez nosso anseio de tornar objetivo o que se passava na subjetividade. A palavra nasceu com a ambição de finalmente traduzir o que dificilmente se explica, traduzir o mistério, o sagrado.

Não sei se por comodismo, pela conveniência que representou, passamos a acreditar demais na palavra, nas suas propriedades quase mágicas. E fico pensando se não chegamos mesmo a criar toda uma sociedade e cultura baseadas nessa ilusão. Entre nós, o que não é dito não existe, o que não está escrito não se cumpre, o discurso que sai pela boca vale mais, por exemplo, do que aquele que podemos ler nos olhos. Criamos o casamento, que é a união amorosa referendada pela palavra, não importando que aquele que jura não esteja de fato comprometido. Criamos a Bíblia e outros livros basilares das religiões, como se Deus se manifestasse como um artífice de verbos e substantivos. E não posso deixar de citar aquele que para mim é um dos efeitos mais nocivos da palavra: gastamos valioso tempo da vida tentando construir discursos e uma retórica para justificar, aos nossos olhos e aos do mundo, o adiamento de decisões, a fuga aos nossos sonhos, antigos preconceitos, sofrimentos desnecessários...

Seria perfeito se a palavra fosse o reflexo direto dos nossos sentimentos, mas não é. São muitos os intermediários e filtros até que ela trilhe todo o caminho do interior para o exterior. Uma criação humana utilizada pelos humanos não tem possibilidades, por sua própria condição, de alcançar o misterioso em nós, aquilo que não captamos com os sentidos. Por isso a palavra é, antes, uma couraça do sentimento. Quanto mais falamos, mais nos expressamos com os sentidos e menos com os sentimentos.  

O ápice da glorificação da palavra vem com a ciência. De fato, para a ciência não basta conhecer, mas é necessário também que se saiba explicar e registrar o conhecimento em signos que sejam apreendidos pelos sentidos. O que está além da palavra, não toca à ciência. Aliás, talvez a ciência nem admita que haja algo além da palavra. Mas eu prefiro acreditar que, aquilo que não é observável, em vez de não existir, apenas não pode ser apreendido pela racionalidade da maneira como a entendemos hoje.

Não pretendo dizer que a ciência e a palavra não têm importância alguma. Apenas acho que não são ainda o estágio final do conhecimento que podemos obter nem são os instrumentos mais bem acabados para que possamos explorar toda potência que temos como seres humanos.

Mas não dá para negar, por exemplo, que a palavra, ainda mais dependendo de como for utilizada, pode construir pontes entre as subjetividades. Todos reconhecemos que há algo de mágico quando um livro, uma poesia ou uma canção falam diretamente ao nosso coração, como se tivessem sido feitos para nós, no exato momento da vida em que cruzam o nosso caminho. Há casos concretos: lembro que a primeira vez que li Victor Hugo, lá se vão 7 anos, tive a sensação de que haviam hackeado meu coração e transcrito o conteúdo em forma de romance. Os duzentos anos que separam a morte dele do meu nascimento não me parecem nem um pouco intransponíveis e sinto como se fôssemos amigos de bar, daqueles que se encontram mais de uma vez na semana para falar sobre o que lhes passa na mente. Outro dia até descobri que o Victor Hugo escrevia nu. Coincidência ou não, eu o leio trajando simplesmente as roupas de baixo. A palavra, sem dúvida, cria pontes.

Eu mesmo já tive o sonho, a ingênua e perdoável ambição, de mudar o mundo através da palavra. De escrever um romance, uma história qualquer, uma piada que fosse, que pudesse trazer instantaneamente a quem a lesse a sensação de plenitude, de estar vivo, de fazer parte da Natureza e do que há de divino no Universo. Nos meus mais ousados devaneios, cheguei a sonhar que toda a beleza, alegria, todo o amor da vida pudessem ser reunidos, quem sabe, em uma palavra só. A palavra que sintetizasse tudo que realmente importa, que falasse em conexão direta com nossa alma e nos abrisse os olhos para a grandeza da vida. Uma palavra que seria, de fato, a verdadeira pedra filosofal, a palavra-mãe, a palavra Gaia. Algo do tipo "suvaco". Mas não deu certo.  

Uma vez me falaram de um conto do Borges sobre um sacerdote maia que se dedicava dia em noite pela busca da grande verdade da vida. Leu todos os livros que tinha à disposição, antigos e contemporâneos, consultou velhos sábios, revisitou a tradição oral de seu povo. Por mais que estudasse, sentia que não chegava nem um pouco perto do que procurava. Até que um dia um governante tirano, por temer o sacerdote, o mandou para a prisão, onde passaria muitos anos. Logo no primeiro dia de cadeia, o sacerdote notou que a cela ao lado era onde mantinham trancada uma onça-pintada (que chamam de jaguar). A princípio, ele não deu muita importância para a companhia do animal. Com o passar dos dias, como ficava longas horas olhando para as manchas pretas na pelagem do jaguar, percebeu então que finalmente havia chegado a oportunidade de desvendar a verdade da vida. Os céus haviam colocado diante dele, na forma das manchas no jaguar, um código que continha todo o Universo. Bastava decifrá-lo! E assim os sacerdote passou todos os dias restantes na cadeia dedicado a decodificar o pelo do vizinho de cela. Consta que conseguiu.

A história é inesquecível para mim, porque acho que pode servir de metáfora para o que tentei dizer ao longo do texto. Não é verdade que a essência da vida não esteja escrita em nenhum lugar. Ela só não está nos lugares onde a gente costuma procurar, nem chegará a nós por meio de palavras.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pastagem ao cair da tarde

Oi, amigos.

Talvez eu lhes deva uma satisfação. Em 2013 temos uma nova ilustração no topo desta página. Achei que, depois de cinco anos no ar, era hora de mudar um pouco. Cinco anos...

É uma foto que eu mesmo fiz e que se chama "Pastagem ao cair da tarde". Notem o mato verde. Basta chover um pouco para ficar assim. Dias antes o cerrado estava tão seco que dava dó. Depois da primeira chuva, que é quase só um respingo, tudo floresce de novo, de uma hora para outra.

Então as vacas pastam com mais gosto. Não é que não pastassem na seca, mas o capim amarelo não lhes seduz tanto quanto o verde. Quando tirei a foto, era nisso e também em outras coisas que eu estava pensando.

Essas vacas, as montanhas, o curral à esquerda e tudo mais que pode ser visto na imagem, menos o céu, pertencem à fazenda do meu avô. Desde pequeno eu vou para lá quase todo domingo. Não fica longe daqui, mas é tão diferente da cidade, em todos os aspectos, que parece estar em outro continente e também em outro século. Provavelmente é o lugar que eu mais visitei na vida. Certamente é o que mais eu carrego como recordação dentro de mim e para onde meu pensamento vai sempre que monta a cavalo.

Eu dizia que lá parece pertencer a outro século. É verdade. No início, nem energia elétrica tinha. Hoje já tem, mas felizmente não influencia em nada, porque são tão poucas as lâmpadas e tão pouco potentes que, quando anoitece, o quintal e a terra toda ao redor ficam escuros a ponto de não vermos nada um metro adiante. Apenas estrelas.

Lá ainda se cria o gado como antigamente, de maneira desorganizada e sem tecnologia alguma. O método se baseia, grosso modo, em deixá-lo pastar à vontade, sem impor grandes obstáculos. Pela manhã, reúne-se o rebanho para tirar leite e ver se alguém precisa de algum cuidado especial, como tratar ferimentos ou extrair carrapatos. Dá trabalho, mas daria mais ainda para quem não é um iniciado, o que não é o caso.

Meu avô ainda chama as vacas pelos nomes que ele mesmo dá. Com toda certeza, essas da foto têm uma identificação própria, mas vou ficar devendo. Pelo nome, conheço apenas as vacas que fizeram parte da minha infância, como a Beleza, a Dinamarca e a Bolacha. Esta última, aliás, tinha um defeito em uma das patas, o que não a impedia de correr atrás da gente. Ao mesmo tempo, terror e alegria da criançada. Foi a mais temperamental que eu já conheci.

Se eu fosse parar para contar todas as histórias, memórias e impressões da fazenda, levaria muito tempo. Está aí uma ideia: sentar qualquer dia para tentar organizar, da forma mais fidedigna, os registros das minhas experiências lá. Enquanto isso, voltarei ao assunto outras vezes aqui na página, sempre que o dia-a-dia estiver precisando de um toque rural.

Antes de terminar, para o retrato não ficar tão cheio de lacunas, preciso dizer ainda que lá na fazenda tem uma pequena produção de queijo minas. Funciona numa casinha caindo aos pedaços, perto do curral, com o chão de cimento vermelho todo carcomido pelo sal. Ao longo dos anos, os punhados de sal que foram caindo no chão abriram crateras. É um efeito curioso. Chamo a casinha de "A Fantástica Fábrica de Queijos". A produção diária, totalmente artesanal, é de mais ou menos 20 unidades. Se a vigilância sanitária passasse por lá, veria que não seguir todas as normas técnicas de higiene não faz tão mal assim para a comida, antes, forma o caráter de quem come.

Bem, acho que não haveria melhor foto para ilustrar a página. Para mim, vai ser sempre uma janela para outro mundo, que abrirei sempre que der vontade de visitá-lo. Talvez quem não conheça o lugar da imagem também, de alguma maneira, se sinta transportado para outra realidade. De qualquer jeito, acho que passa um recado. A pessoa abre a página e pensa: "opa, este blog aqui tem a ver com a natureza, com o entardecer, com as vacas pastando, com o céu preparando para chover, com as montanhas, com os queijos frescos, com a melodia dos pássaros, com a melodia do ar, com o capim, com o gado sem raça definida nem registro, com currais precários, com o Brasil, com os séculos passados, com a saudade, com a lembrança, com a beleza, com a vida..." Feliz 2013!