domingo, 24 de fevereiro de 2013

Da série "Diálogos que poderiam ser"

No tapete vermelho do Oscar:

- Vejam só quem está aqui do meu lado! E que belo terno! De quem é? Um Gucci?

- Não, é do meu pai. Nosso tamanho é o mesmo. Peguei emprestado ontem, mal deu tempo de passar direito. Geralmente eu pego o do meu irmão, mas ele ia a um casamento hoje e precisava do terno também.

- Uma família de bom gosto, sem dúvida! Agora, conte para o pessoal que nos assiste em casa, o que são esses brilhos prateados na lapela, algum tipo de spray de cristais?

- Naftalina, parece. Mas à noite acho que ninguém vê.

- E os sapatos? Italianos, se não me engano?

- Não sei. São os mesmos do ano passado, quase não uso sapato. Só em formatura, casamento e agora, na festa do Oscar, isso dá umas duas vezes por semestre, e olhe lá. No dia-a-dia eu vou de chinelo para o estúdio e lá coloco os calçados do figurino. Isso quando não é filme de gladiador, porque ai fico direto com minha sandália de casa mesmo.

- E combinam perfeitamente com os óculos! Prada?

-Tudótica. Ou então Óticas Diniz, já não lembro bem. Mas é uma das duas, com certeza.

- Agora, conta pra gente quem faz esse cabelo? Como é que chega nesse efeito?

- Quem faz meu cabelo?

- É. Quem é o responsável pelo penteado.

- Ah, sim. Fui eu mesmo. Me penteio sozinho desde os 6, 7. Esse efeito que você deve estar falando é porque ainda não secou direito. Eu sempre deixo um pouco de neutrox sem enxaguar, para ficar mais fácil de abaixar os fios arrepiados.

- Fica aí a dica! Muito obrigado por participar com a gente e aproveite a festa. Estamos torcendo por você, uma atuação tão sensível num filme tão tocante, profundo...

- Quê isso! É só mais um blockbuster e eu quase não atuei. Na maior parte das cenas, as de explosões, era o dublê, e quando eu tinha uma fala era só de uma frase, porque aí, pá!, entravam a trilha sonora e os tiros. Cinemão mesmo.    

Palavras

A história de cada pessoa, a todo tempo, e, em consequência, a história da humanidade, é de uma busca constante por algo que nos palpita desde crianças na garganta ou mais fundo, pede para ser expressado e ganhar forma, mas, salvo em raríssimos e breves instantes, não sabemos como fazê-lo. Dá para perceber uma força muito viva dentro de nós, que, por instinto de sobrevivência e perpetuação, precisa transbordar, ganhar o mundo, encontrar-se com as forças das outras pessoas e assim cumprir seus ciclos. Só não sei se esse pólen que carregamos conosco se chama alma, espírito, se é uma porção de Deus residente em cada homem, se é a natureza ou se é a vida.

O que parece claro é que, desde o início, os primeiros homens já não eram indiferentes a essa necessidade, que assim dá a entender que é mesmo parte integrante da espécie. Uma necessidade nivelada com a de se alimentar e matar a sede, e não apenas um capricho para momentos em que a subsistência estivesse garantida. 

Os feitos do engenho humano, em sua grande maioria, são esforços para abrir as sendas pelas quais o que temos para expressar possa fluir de nós para fora. Alguns exemplos são óbvios, como a música e a dança. No entanto há esse propósito mesmo em atividades corriqueiras, o trabalho diário, por exemplo. Radicalizando um pouco, acho que eu colocaria até a guerra nessa mesma categoria, porque também ela pode ser uma manifestação, muito estranha, é verdade, do que buscamos externar.

Mas a invenção da qual eu quero falar é a palavra. Nenhuma outra criação dos homens teve o intuito mais claro de sanar de uma vez nosso anseio de tornar objetivo o que se passava na subjetividade. A palavra nasceu com a ambição de finalmente traduzir o que dificilmente se explica, traduzir o mistério, o sagrado.

Não sei se por comodismo, pela conveniência que representou, passamos a acreditar demais na palavra, nas suas propriedades quase mágicas. E fico pensando se não chegamos mesmo a criar toda uma sociedade e cultura baseadas nessa ilusão. Entre nós, o que não é dito não existe, o que não está escrito não se cumpre, o discurso que sai pela boca vale mais, por exemplo, do que aquele que podemos ler nos olhos. Criamos o casamento, que é a união amorosa referendada pela palavra, não importando que aquele que jura não esteja de fato comprometido. Criamos a Bíblia e outros livros basilares das religiões, como se Deus se manifestasse como um artífice de verbos e substantivos. E não posso deixar de citar aquele que para mim é um dos efeitos mais nocivos da palavra: gastamos valioso tempo da vida tentando construir discursos e uma retórica para justificar, aos nossos olhos e aos do mundo, o adiamento de decisões, a fuga aos nossos sonhos, antigos preconceitos, sofrimentos desnecessários...

Seria perfeito se a palavra fosse o reflexo direto dos nossos sentimentos, mas não é. São muitos os intermediários e filtros até que ela trilhe todo o caminho do interior para o exterior. Uma criação humana utilizada pelos humanos não tem possibilidades, por sua própria condição, de alcançar o misterioso em nós, aquilo que não captamos com os sentidos. Por isso a palavra é, antes, uma couraça do sentimento. Quanto mais falamos, mais nos expressamos com os sentidos e menos com os sentimentos.  

O ápice da glorificação da palavra vem com a ciência. De fato, para a ciência não basta conhecer, mas é necessário também que se saiba explicar e registrar o conhecimento em signos que sejam apreendidos pelos sentidos. O que está além da palavra, não toca à ciência. Aliás, talvez a ciência nem admita que haja algo além da palavra. Mas eu prefiro acreditar que, aquilo que não é observável, em vez de não existir, apenas não pode ser apreendido pela racionalidade da maneira como a entendemos hoje.

Não pretendo dizer que a ciência e a palavra não têm importância alguma. Apenas acho que não são ainda o estágio final do conhecimento que podemos obter nem são os instrumentos mais bem acabados para que possamos explorar toda potência que temos como seres humanos.

Mas não dá para negar, por exemplo, que a palavra, ainda mais dependendo de como for utilizada, pode construir pontes entre as subjetividades. Todos reconhecemos que há algo de mágico quando um livro, uma poesia ou uma canção falam diretamente ao nosso coração, como se tivessem sido feitos para nós, no exato momento da vida em que cruzam o nosso caminho. Há casos concretos: lembro que a primeira vez que li Victor Hugo, lá se vão 7 anos, tive a sensação de que haviam hackeado meu coração e transcrito o conteúdo em forma de romance. Os duzentos anos que separam a morte dele do meu nascimento não me parecem nem um pouco intransponíveis e sinto como se fôssemos amigos de bar, daqueles que se encontram mais de uma vez na semana para falar sobre o que lhes passa na mente. Outro dia até descobri que o Victor Hugo escrevia nu. Coincidência ou não, eu o leio trajando simplesmente as roupas de baixo. A palavra, sem dúvida, cria pontes.

Eu mesmo já tive o sonho, a ingênua e perdoável ambição, de mudar o mundo através da palavra. De escrever um romance, uma história qualquer, uma piada que fosse, que pudesse trazer instantaneamente a quem a lesse a sensação de plenitude, de estar vivo, de fazer parte da Natureza e do que há de divino no Universo. Nos meus mais ousados devaneios, cheguei a sonhar que toda a beleza, alegria, todo o amor da vida pudessem ser reunidos, quem sabe, em uma palavra só. A palavra que sintetizasse tudo que realmente importa, que falasse em conexão direta com nossa alma e nos abrisse os olhos para a grandeza da vida. Uma palavra que seria, de fato, a verdadeira pedra filosofal, a palavra-mãe, a palavra Gaia. Algo do tipo "suvaco". Mas não deu certo.  

Uma vez me falaram de um conto do Borges sobre um sacerdote maia que se dedicava dia em noite pela busca da grande verdade da vida. Leu todos os livros que tinha à disposição, antigos e contemporâneos, consultou velhos sábios, revisitou a tradição oral de seu povo. Por mais que estudasse, sentia que não chegava nem um pouco perto do que procurava. Até que um dia um governante tirano, por temer o sacerdote, o mandou para a prisão, onde passaria muitos anos. Logo no primeiro dia de cadeia, o sacerdote notou que a cela ao lado era onde mantinham trancada uma onça-pintada (que chamam de jaguar). A princípio, ele não deu muita importância para a companhia do animal. Com o passar dos dias, como ficava longas horas olhando para as manchas pretas na pelagem do jaguar, percebeu então que finalmente havia chegado a oportunidade de desvendar a verdade da vida. Os céus haviam colocado diante dele, na forma das manchas no jaguar, um código que continha todo o Universo. Bastava decifrá-lo! E assim os sacerdote passou todos os dias restantes na cadeia dedicado a decodificar o pelo do vizinho de cela. Consta que conseguiu.

A história é inesquecível para mim, porque acho que pode servir de metáfora para o que tentei dizer ao longo do texto. Não é verdade que a essência da vida não esteja escrita em nenhum lugar. Ela só não está nos lugares onde a gente costuma procurar, nem chegará a nós por meio de palavras.