domingo, 28 de abril de 2013

Trato

- Você é escritor?
- Como adivinhou?
- Pela caveira na escrivaninha. E a pena ao lado do tinteiro.
- Poderia ser apenas um louco.
- É o que você está dizendo.
- É o que você está ouvindo.
- Eu vim pelo anúncio no jornal.
- Qual deles?
- "Melhoro sua monografia."
- Desculpe. Apenas o serviço do outro anúncio está disponível.
- Qual seja?
- "Faço sua monografia inteira."
- Ótimo! Me serve também.
- Veio ao lugar certo. Qual é a tese?
- "Com quantos paus se faz uma canoa - uma outra versão."
- Compreendo. Uma das minhas áreas.
- Imaginei.
- Além disso, sou afeito a revisionismos.
- Só espero que meu prazo exíguo não seja empecilho.
- Não será.
- Tenho até quinta-feira.
- Vou lhe cobrar o mesmo que do último cliente que me deu dois dias para o serviço.
- E qual foi o preço?
- Trabalhar comigo para todo o sempre.
- Ah, isso explica a caveira na escrivaninha.
- Não. Isso explica a pena.
- Era um pavão?
- Passista. Foi tudo que sobrou da fantasia. Lá se vão anos.
- Bonita?
- Sabia amar.
- Essas são as melhores.
- As mais raras. Sobretudo, amava as coisas simples. E sorria.
- Não duvido.
- Então é só assinar aqui, garoto, e temos um trato.
- Não sei. Talvez eu queira desistir.
- Bem, nesse caso...
- Entendi. Isso sim explica a caveira.
- É o que você está dizendo.
- É o que estou ouvindo.  


 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O coaxar dos seres

Era noite, e era o bastante
que estivesse vivo e respirasse
ouvisse o coaxar dos seres
e soubesse que sob a lua
havia amantes

Só faltava chover
Opa, começou
Ouça as gotas na calçada
Não precisa pedir nada
que a vida já não dê