quarta-feira, 16 de abril de 2014

Qual lugar

- Quem é você?

- Sou a nova professora.

- Desculpe. Não estamos esperando professora nenhuma.

- Não estão?

- Não.

- É que, como isto aqui é uma novela, e sempre chega uma professora nova, achei que...

- Não, não. Engano seu. Aqui não é uma novela. É um reality show.

- Mas lá fora está escrito...

- Nã-na-nina. Reality show, eu lhe asseguro.

- Já sei! É uma pegadinha! Vocês estão me fazendo de boba.

- Nada disso. E, além do mais, depois do programa Mais Mestres, do governo federal, as escolas praticamente não precisam de professores novos.

- Sabia! Estamos numa propaganda eleitoral gratuita!

- Não, não estamos. Desculpe. Tenho que resolver uns assuntos lá dentro. Foi um prazer conhecê-la. Até logo.

- Já está me dispensando assim?

- Assim como?

- Sem ver o que a professora tem para ensinar?

Moral da história: no final das contas, eles estavam num teste de fidelidade.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Guardanapo

Não sei o que é isso, mas às vezes ainda me flagro em 2008.

Estávamos no mesmo bar de sempre. Devia ser quinta-feira, porque lembro de ver as mesas todas cheias. A gente sentava ao ar livre.

De repente passou uma menina, dessas que poderiam ter o cabelo tingido de azul. Passou chorando baixo, sem querer chamar atenção, como um esquilo.

O Fernando acompanhou a cena muito compenetrado. Viu onde a menina foi se sentar. Então pegou um guardanapo e escreveu: "O tempo cura tudo." Foi lá entregar para ela.

Da nossa mesa, que não era longe, vimos que a menina interrompeu o choro por um instante, para entender o que estava acontecendo. Vimos que ela olhou para o guardanapo, muito rápido, mas nunca saberemos se ela leu a mensagem. No segundo seguinte, já tinha voltado a chorar (acho até que mais forte do que antes).

A hipótese que eu mais gosto é que naquela noite ela foi para casa ainda arrasada e debaixo de lágrimas. Sem conseguir dormir, começou a, maquinalmente, mexer na bolsa. "O que é isso?", se perguntou. "Um guardanapo!"

Ao ler o que estava escrito, entendeu, quase por mágica, que não vale a pena sofrer tanto. Que, com o passar dos dias, a vida se encarrega de dar sentido ao que antes parecia inaceitável e de colocar no lugar o que parecia estar errado.

Engraçado que o próprio Fernando eu já não vejo há muito... tempo! Deve estar semeando bons conselhos por aí, em sacos de pão, cupom fiscal, não importa o meio.

O que será que ele escreveria para mim se me visse, hoje, passando no meio do bar?

Vou dormir pensando nisso. Sempre que vou para 2008, volto com essas coisas na cabeça.