quarta-feira, 4 de junho de 2014

A tripulação

Clóvis, o capitão, precisava de homens para uma viagem secreta e perigosa, que navegaria por lugares que nunca ninguém vivo tinha ouvido falar. No entanto, ele prometia ouro e crescimento espiritual. Já dispunha de marujos ordinários suficientes. O que estava difícil era achar bons homens que executassem funções consideradas por ele cruciais para uma expedição como aquela. Saiu pela cidade à cata de: um intérprete de animais, um churrasqueiro, um adivinho, um ladrão de galinhas e um enxadrista.

Veja como ficou a equipe de especialistas:

- Intérprete de animais: Giovani, 42 anos, sagitário. Falava o idioma de todos os animais e também dominava a linguagem de libras, para o caso de quando topasse com algum espécime surdo ou mudo. Depois descobriu-se que não falava a língua do peixe-boi, por ser esta muito semelhante ao esperanto, coisa que ele nunca quis aprender por motivos ideológicos. Esse detalhe, omitido do currículo, poderia ter colocado toda a tripulação em risco, como se viu mais tarde.

- Churrasqueiro: Marcílio das Neves, publicitário. Enjoava com frequência na maré baixa e sempre na maré alta. De tanto manipular o sal grosso, até achava a água do mar doce e passou a tomá-la sem reservas. Não teve problemas com isso. Ótimo companheiro para conversas existencialistas no convés.

- Adivinho: Espiridião, idade não conhecida e RG falso. Consultava os astros toda a noite, mas, por ética profissional, não revelava o teor da conversa. Às vezes gargalhava, às vezes chorava. Conseguia manter a elegância mesmo nesses extremos, o que fazia os colegas suspeitarem que tinha nascido em Gales.

- Ladrão de Galinhas: Estêvão. Contava piadas com maestria, a não ser por um detalhe: começava a rir antes de terminá-las. Exímio com as palavras, compôs liras nos dias mais difíceis da expedição, em que o cansaço e a desesperança ameaçavam afetar o moral da equipe. Nunca fez rimas com ão e não admitia metáforas com o mar, coisa para ele muito sagrada.

- Enxadrista: Eu. Nas partidas jogadas à noite, sob o luar, deveria ajudar a distinguir as peças pretas das brancas. Às vezes isso não era possível e eu propunha que, em vez do jogo, passássemos para a música. Então alguém sempre sacava, não se sabe de onde, um cavaquinho velho, um piano de cauda ou uma gaita de foles, e começávamos a cantar as músicas que tínhamos há muito tempo guardadas no coração e estávamos com saudade de ouvir. Sim, porque já fazia tempo que andávamos longe de casa. Nessas horas, eu lembrava muito de... Mas aí uma risada especialmente alta do Espiridião sempre me trazia de volta dos meus devaneios.