segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O autor

Eu estava em um dos corredores da universidade, no horário de muito movimento do intervalo entre as aulas. No meio da massa de alunos indo e voltando, muitos com pressa e se apertando para passar, um rapaz de repente ficou bastante surpreso e gritou: "Ei! Lorde Franzino! Lorde Franzino!" Um outro aluno, que parecia ser aquele a quem o rapaz chamava, fez uma cara de genuíno pavor, cobriu o rosto desesperadamente com  uma pasta que tinha na mão e saiu correndo por uma escada lateral, até sumir do nosso campo de visão. Acompanhei com muita atenção a cena toda, que não durou mais que alguns segundos, e segui para minha aula intrigado.

Dias depois, durante uma pausa na leitura, fui ao banheiro da seção de literatura estrangeira da biblioteca. Eu estava sozinho ali e entregue a bons devaneios, até que me detive em uma inscrição na parede da cabine. Eram palavras breves, quase desorganizadas, a princípio rabiscadas sem intenção alguma, mas que aos poucos foram ganhando força na minha cabeça. Não era poesia, mas possuía uma música intrínseca. Também não era filosofia, apesar de abrir sucessivos horizontes. Ainda meio estupefato, sinceramente golpeado por aquelas frases, vi que ao final havia uma assinatura: "Lorde Franzino".

Saí do banheiro e caminhei direto para o jardim do lado de fora da biblioteca. O texto da parede ecoava em mim. Senti a presença do céu, do sol e dos pássaros como nunca antes. Eu estava tomado por um irresistível otimismo e por uma fé na vida. Aquele texto, para mim, era tudo que a palavra escrita deveria ser: um indutor de estados de espírito cada vez mais elevados.

Passei a procurar novas inscrições. Notei que por todo o campus havia espalhadas pequenas obras assinados por Lorde Franzino. Em diversas paredes de banheiro, em carteiras nas salas de aula, nos bambus das áreas verdes, nas lixeiras do subsolo. Cada novo texto que eu lia me levava para inéditas alturas da existência e aumentava minha inclinação para aquele autor misterioso.

Quem era o homem por trás do pseudônimo? Quem era Lorde Franzino e o que ele queria? Será que aquele rapaz que um dia gritou por Lorde Franzino no corredor apinhado de alunos era um fã como eu? Agora essa me parecia a hipótese mais provável. Me parecia óbvio que alguém que tivesse contato com aquela obra se tornasse naturalmente um devoto.

Por mais que eu tentasse, não conseguia me lembrar do rosto daquele dia no corredor. Será que Lorde Franzino era mesmo o jovem que se cobriu com a pasta e saiu correndo? E por que ele quis fugir, quase desesperado?

Se as frases que ele distribuía pelo campus não estivessem, àquela altura, gerando um deslumbramento cada vez maior em mim, talvez eu desistisse de tentar encontrá-lo. O problema é que meu íntimo ansiava em saber quem era Franzino, olhá-lo no olhos e dizer o quanto eu era grato.

Tomei a resolução de deixar a seguinte mensagem abaixo de cada texto dele pelo campus: "Caro Lorde, me encontre para um papo. Para mim é fundamental. Estarei todos os dias ao meio-dia na banca de revistas. Ass.: Leitor Fiel."

Como prometi, todos os dias, terminada a aula da manhã, eu saía correndo e me postava em frente à banca. Observava as turma de alunos e especulava se Franzino estava entre eles. Às vezes eu tinha a impressão de que alguém me olhava disfarçadamente, e então eu achava que podia ser o meu esperado autor, mas não era. Naqueles dias, ninguém parou para falar comigo.

Intensifiquei os recados pelo campus. Descobri textos de Franzino em novos lugares, como em bases de cupinzeiros e caixas eletrônicos, e também abaixo desses deixei minha mensagem. Além disso, comecei a imprimir panfletos com o convite para encontrá-lo, que espalhava pelos corredores.

Quanto mais demorava, mais crescia em mim aquilo que já era quase uma obsessão. Eu não tencionava desistir da minha busca, mas confesso que começava a perder as esperanças.   

Franzino veio a mim em um dia chuvoso, em que não havia quase ninguém nos corredores e poças se formavam abaixo das goteiras nos corredores. Eu soube que era ele pelo cutucão que me deu no meio das costelas, de alguma forma a maneira de cutucar de um escritor, ou assim me pareceu. Meu ser gelou. Olhei para o lado. Ele tinha sobre a cabeça o capuz do casaco, que não chegava a tampar o rosto.

"Você está louco?", sussurrou furioso Franzino, tomando cuidado para não chamar atenção.

"Eu? Não! O que houve?", perguntei, pego de surpresa.

"Não percebe que eu sou um autor anônimo e assim devo permanecer? As pessoas não podem saber quem sou! Eu não tenho rosto, não tenho nome! Sou Lorde Franzino, e isso basta! O resto, cabe ao público apenas imaginar!"

Confuso, demorei para responder. Olhei pela primeira vez para ele com mais atenção. Era jovem, como eu, e carregava mochila, como um aluno qualquer. Tinha um rosto onde se viam a bondade do marujo e a picardia do bardo.

"Já sei. Você é daqueles artistas que são contra o culto ao autor. Nada mais natural. Você quer que sua obra fale mais alto, não importando quem a escreveu, e sim o que ela própria significa. A mensagem é o que vale, e não o mensageiro. Entendo bem. Eu não esperava outra coisa de você. Fico ainda mais..."

"Cara, não é nada disso!", gritou Franzino, e depois soltou um palavrão. Ele tirou o casaco bruscamente, respingando um pouco da água da chuva em mim. Por baixo, vestia uma camiseta regata.

"Olha pra mim", continuou. "Olha esse bronzeado, esses músculos...", ele apontava para o próprio corpo. "Você acha que eu tenho cara de escritor?"
  
Devo ter feito uma expressão de quem começava a compreender, porque ele baixou um pouco o tom de voz. "Olha esse cabelo, parece que se autopenteia! Só eu sei quantas vezes por dia tento bagunçá-lo, mas ele simplesmente volta para o lugar!"

"Cara", Franzino agora falava comigo quase como alguém que se confessa para o melhor amigo, "eu já tentei de tudo para ter menos essa pinta de não-escritor, mas não adianta. É a minha natureza. Parece que meu bíceps se exercita sozinho, sei lá eu. Já me conformei. A maneira que encontrei para preservar a credibilidade dos meus textos foi o anonimato, e está dando certo. Aí vem você com essa insistência em me conhecer, fica espalhando mensagens pelo campus, me expondo!"

"Franzino, então tudo é uma questão de aparência e estereótipos?", questionei, traindo um quê de decepção na minha voz. "Nunca imaginei que o autor de textos como os seus fosse se deixar afetar por algo tão pequeno. Além disso, você está equivocado, porque hoje as pessoas são evoluídas o suficiente para não julgar um trabalho pela aparência do artista."

"Você queria me conhecer, não é? Este sou eu. Sinto muito se não estou à altura das expectativas. Talvez nosso encontro de hoje seja uma prova de que o leitor não deva mesmo saber muita coisa sobre o escritor. E aí a minha tese estará correta. Só te peço uma coisa. Por favor, não destrua a lenda de Lorde Franzino! Não conte nada a ninguém!"
 
Ele vestiu de volta o casaco, baixou o máximo que pôde o capuz sobre o rosto e se despediu com um "falô". Fiquei ainda alguns minutos na minha posição, vendo a chuva e pensando sobre o que havia acabado de acontecer.

Nos dias seguintes, experimentei uma libertação dos textos de Franzino. Já não pensava neles como antes e não sentia mais a necessidade de procurá-los no campus. Voltei a minha atenção para outros temas, que me despertavam fanatismo nenhum, o que foi um verdadeiro alívio. Quando me lembrava do período em que cada frase escrita por Franzino me soava como uma revelação, achava graça e sentia uma saudade carinhosa. A mesma saudade quando, por acaso, voltamos a ouvir uma banda da adolescência.

No final do semestre, estava almoçando com a turma no restaurante universitário quando um colega de um amigo, com quem eu conversava de vez em quando, me perguntou:

"E aí? No que deu aqueles recados que você espalhava pela universidade? Conseguiu encontrar o tal Lorde Franzino?"

Pensei um pouco antes de responder, o tempo em que engoli um pedaço de comida.

"Encontrei, sim. Foi difícil, porque o cara mal sai de casa. Tem anemia crônica, parece. Um fiapo. Chega a assustar. Cabelo e barba selvagens, voz frágil, pálido como um conde da Transilvânia. Nunca vi igual."   

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Diários da selva

Chegamos a uma clareira da floresta na hora em que a tarde já se fazia noite. Devia ser algum ponto a oeste da fronteira, mas não tínhamos certeza. Os mapas convencionais não faziam mais sentido havia dias.

O mestre-bambuzeiro ergueu a mão e anunciou que deveríamos montar as barracas ali mesmo, porque no escuro seria quase impossível. O capitão aquiesceu, para nosso alívio. Enquanto erguia meu abrigo, vi um clã de pirilampos, a quem batizei de Tremendões.

Logo havia lumes de fogo e fumaça recendendo a churrasco de paca. Nossos estômagos apitaram felizes e refletiram um alegre estado de espírito que de repente tomara conta da missão.

O barulho e a carne assada eram necessários para o moral do grupo, mas traziam também certo risco. O capitão avisou que se aparecesse alguma onça, não era para atirar, e sim para conversar com ela. "Atirar com quê?", eu pensei, "só temos estilingues". Mas àquela altura eu ainda era um cético a respeito de muitos assuntos.

Pouco antes de dormir, cantamos canções há muito esquecidas.

O capitão ficou deitado na rede, com um cachimbo no canto da boca, analisando o mapa inca. Quando coçava a barba, nos causava angústia, porque pensávamos que ele não estava entendendo nada.

Não demorei muito tempo acordado e, antes mesmo de me dar conta, caí no sono. De tão extenuado, dormi pesadamente. As imagens dos sonhos vieram nítidas, aconchegantes, evocando a realeza e o misticismo da mata. Então sonhei que na manhã seguinte finalmente chegávamos a Eldorado.

A cidade ficava no fundo de um vale, espremida entre duas enorme montanhas. Para chegar lá, tínhamos que descer uma encosta, e durante todo o percurso ficava diante de nós a vista de um halo dourado a pairar por cima do espesso arvoredo e de casas e ruelas construídas em puro ouro.  

Os nativos vieram nos receber, montados em alpacas e vestidos em lã colorida. Extremamente afáveis, nos perguntaram de onde vínhamos, na língua deles, que nosso capitão sabia falar. Quando respondemos, disseram apenas "não sabemos onde fica".    

Nosso capitão e o líder deles travaram uma conversa de apresentações enquanto atravessávamos a rua principal. Quando paramos em uma praça rodeada de jardins e enfeitada com estátuas de pássaros, peixes e seres míticos esculpidos em um ouro tão reluzente que chegava a irritar os olhos, os nativos fizeram uma parada e desceram das alpacas. "Por favor", disse o líder do povoado, "só não levem aquilo que é mais precioso para nós".

Ele apontou para três chafarizes em um canto, de onde jorravam três sabores diferentes de refrigerante gelado. Os líquidos transbordavam e desciam em torrentes primeiro para pequenos córregos, depois para riachos, até desembocarem em grandes rios de refrigerantes, que corriam luminosos por todo o território.

Nossa comitiva pôde olhar com mais atenção ao redor. Os habitantes de Eldorado eram sorridentes e caminhavam para cima e para baixo com cuias na mão. Frequentemente se abaixavam perto de um curso de refrigerante e se serviam fartamente. Havia também muitas tendas que vendiam dezenas de tipos de hambúrguer, que fora de dúvida era a comida típica local.

"Podemos levar o ouro?", perguntou nosso capitão.

 "Isso?", apontou o líder para as construções ao redor. "Vem das nossas galinhas. Elas botam ovos assim. Temos muitas, podem levar quantas quiserem."

Nesse ponto do sonho, acordei. A mata também acordava. Meu olhar, não sei por que, foi atraído para o lado do nosso capitão. Vi que ele me fitava, e sustentei aqueles olhos em mim. Eu, que havia sempre me considerado um racional, comecei a desconfiar que aquele homem lia meu pensamento. Por algum motivo, supus  que ele sabia o que eu tinha sonhado. E mais, que também ele havia tido um sonho parecido.

O capitão caminhou até o mestre-churrasqueiro, que preparava o desjejum, e perguntou: "Ribas, lembrou de trazer o picles, o catchup e as batatas fritas?"

"Sim, capitão", respondeu. "E também o refri."

"Não. O refri, creio, não será necessário."

E fez soar o toque da alvorada, que misturado aos cantos da selva, acordou os demais companheiros para aquele que seria o dia mais importante da missão.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Diários de viagem



Regras para nadar no Lago Secreto:
- Encontre-o  
- Vista uma touca
- Mantenha distância da sucuri


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Um minuto no tempo



Existe um minuto que para no tempo
No silêncio de mar, de pedra perfeita
Um eco de dentro reflete no peito
Vontade na vida de querer viver
E danço um axé que não sei direito
Ou qualquer molejo que faça sorrir
Pergunto pro tempo se tem algum jeito
De manter esta tarde
Pra sempre aqui


* Feliz 2015, ano ímpar!