sexta-feira, 15 de maio de 2015

Diários da selva

Chegamos a uma clareira da floresta na hora em que a tarde já se fazia noite. Devia ser algum ponto a oeste da fronteira, mas não tínhamos certeza. Os mapas convencionais não faziam mais sentido havia dias.

O mestre-bambuzeiro ergueu a mão e anunciou que deveríamos montar as barracas ali mesmo, porque no escuro seria quase impossível. O capitão aquiesceu, para nosso alívio. Enquanto erguia meu abrigo, vi um clã de pirilampos, a quem batizei de Tremendões.

Logo havia lumes de fogo e fumaça recendendo a churrasco de paca. Nossos estômagos apitaram felizes e refletiram um alegre estado de espírito que de repente tomara conta da missão.

O barulho e a carne assada eram necessários para o moral do grupo, mas traziam também certo risco. O capitão avisou que se aparecesse alguma onça, não era para atirar, e sim para conversar com ela. "Atirar com quê?", eu pensei, "só temos estilingues". Mas àquela altura eu ainda era um cético a respeito de muitos assuntos.

Pouco antes de dormir, cantamos canções há muito esquecidas.

O capitão ficou deitado na rede, com um cachimbo no canto da boca, analisando o mapa inca. Quando coçava a barba, nos causava angústia, porque pensávamos que ele não estava entendendo nada.

Não demorei muito tempo acordado e, antes mesmo de me dar conta, caí no sono. De tão extenuado, dormi pesadamente. As imagens dos sonhos vieram nítidas, aconchegantes, evocando a realeza e o misticismo da mata. Então sonhei que na manhã seguinte finalmente chegávamos a Eldorado.

A cidade ficava no fundo de um vale, espremida entre duas enorme montanhas. Para chegar lá, tínhamos que descer uma encosta, e durante todo o percurso ficava diante de nós a vista de um halo dourado a pairar por cima do espesso arvoredo e de casas e ruelas construídas em puro ouro.  

Os nativos vieram nos receber, montados em alpacas e vestidos em lã colorida. Extremamente afáveis, nos perguntaram de onde vínhamos, na língua deles, que nosso capitão sabia falar. Quando respondemos, disseram apenas "não sabemos onde fica".    

Nosso capitão e o líder deles travaram uma conversa de apresentações enquanto atravessávamos a rua principal. Quando paramos em uma praça rodeada de jardins e enfeitada com estátuas de pássaros, peixes e seres míticos esculpidos em um ouro tão reluzente que chegava a irritar os olhos, os nativos fizeram uma parada e desceram das alpacas. "Por favor", disse o líder do povoado, "só não levem aquilo que é mais precioso para nós".

Ele apontou para três chafarizes em um canto, de onde jorravam três sabores diferentes de refrigerante gelado. Os líquidos transbordavam e desciam em torrentes primeiro para pequenos córregos, depois para riachos, até desembocarem em grandes rios de refrigerantes, que corriam luminosos por todo o território.

Nossa comitiva pôde olhar com mais atenção ao redor. Os habitantes de Eldorado eram sorridentes e caminhavam para cima e para baixo com cuias na mão. Frequentemente se abaixavam perto de um curso de refrigerante e se serviam fartamente. Havia também muitas tendas que vendiam dezenas de tipos de hambúrguer, que fora de dúvida era a comida típica local.

"Podemos levar o ouro?", perguntou nosso capitão.

 "Isso?", apontou o líder para as construções ao redor. "Vem das nossas galinhas. Elas botam ovos assim. Temos muitas, podem levar quantas quiserem."

Nesse ponto do sonho, acordei. A mata também acordava. Meu olhar, não sei por que, foi atraído para o lado do nosso capitão. Vi que ele me fitava, e sustentei aqueles olhos em mim. Eu, que havia sempre me considerado um racional, comecei a desconfiar que aquele homem lia meu pensamento. Por algum motivo, supus  que ele sabia o que eu tinha sonhado. E mais, que também ele havia tido um sonho parecido.

O capitão caminhou até o mestre-churrasqueiro, que preparava o desjejum, e perguntou: "Ribas, lembrou de trazer o picles, o catchup e as batatas fritas?"

"Sim, capitão", respondeu. "E também o refri."

"Não. O refri, creio, não será necessário."

E fez soar o toque da alvorada, que misturado aos cantos da selva, acordou os demais companheiros para aquele que seria o dia mais importante da missão.