segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Documentário

Transeunte 1: "Tem muita coisa pra filmar aqui na cidade. Ixi, muita mesmo! Tem muita história aqui, coisa antiga, muito bonito [corte] Não... Naquele castelo eu não sei o que tem, não. Acho que não tem nada. Ninguém vai lá, acho que não vai, né?"

Transeunte 2: "Rapaz, não sei! Acredita? E tem alguma coisa lá? Alguém mora lá? Aqui a gente diz que é um castelo abandonado, desde criança [corte] Não, que eu saiba, não. Ninguém vai lá. É longe, né, no alto. Não deve nem ter estrada direito."

Imagem distante do castelo no alto da montanha, visto do meio do movimento na praça da matriz. Sobe trilha sonora [sanfona incidental]. Imagens das ruas, fachada da prefeitura.

Prefeito: "É uma cidade muito ordeira, próspera, digamos assim, como de resto todo o país. Você pode ver. Povo trabalhador. Guerreiro! A gente tem esse orgulho de trabalhar, fazer tudo como deve ser [close no bigode]. E assim a gente vai levando, na nossa tranquilidade aqui, nesse nosso cantinho do mundo [corte].     

Pergunta do diretor: "E o castelo?"

Prefeito: "Olha, aí eu não sei. Aí complicou. Não, não sei, eu... Pode cortar? Corta essa parte."

Sobe trilha sonora [pífaros misteriosos]. Noite fechada. Câmera em primeira pessoa, percorrendo caminho no meio da mata, folhas batendo na lente. Placa de "não entre, propriedade privada" [close na coruja em cima da placa].

Latido. Dedo na campainha. Voz do diretor: "O patrão está?". Voz do outro lado: "Quem é?". Fade out. Corta a música.

Interior do castelo. O grande salão da lareira. Barulho de passos descendo a escada. A porta range e abre. Surge uma figura não identificada, de robe.

Figura: "Olá. É pra me sentar aqui? Já começou a filmar?"

[Corta]

Cena seguinte. Senhor de robe sentado na cadeira de frente para o diretor. Breve silêncio.

Diretor: "Por que você mora nesse castelo?"

Senhor de robe: "Aqui é minha casa e a minha prisão. Eu vivo feliz aqui, só não posso sair. Tenho que ficar, mas tá bom assim."

Diretor: "E você fica isolado aqui..."

Senhor de robe: "... porque sou o último corrupto do Brasil."

[Entra trilha sonora poderosa. Violinos e trompetes. Relâmpagos]

Letras garrafais: O Último Corrupto do Brasil

Letras não tão garrafais: Breve nos cinemas