sexta-feira, 8 de abril de 2016

Uma opinião e uma homenagem

Uma das crenças mais caras às pessoas atualmente é a de que qualquer um pode "fazer a diferença" no mundo. Como se todo indivíduo, seja por sua obstinação, talento ou sorte, fosse um fator potencial de desestabilização da História.

Filmes, jornais e programas de TV adoram explorar a narrativa do ser humano que, pretensamente, mudou a vida de todos os outros. O público também adora acreditar que a possibilidade de inaugurar uma era aguarda cada um de nós em cada esquina.

A crença do fazer a diferença acalenta o sonho de muita gente. É alimentada pelos pais, pelas universidades, pela propaganda. Não sei quando isso começou, mas especialmente para as gerações nascidas de 30 anos para cá, parece que nada abaixo de ser presidente da galáxia é o bastante.

As pessoas deveriam cotejar melhor suas aspirações com a realidade. Em um mundo de 7 bilhões de indivíduos, qual é a real chance de um de nós realmente influenciar parcelas significativas da população?

Sei que, neste momento em que no Brasil e no mundo tanta gente vai às ruas com legítima empolgação se manifestar por direitos e convicções, soa antipático dizer que nós, indivíduos, não temos tanto poder assim.

Claro que grandes manifestações influenciam no curso da sociedade. Mas é o caso de se questionar, sobretudo, o quanto esses atos não são, por sua vez, influenciados por um espírito de mudança que já pairava na sociedade e que eles vêm apenas ratificar.

A participação em momentos históricos fascina ao convencer o indivíduo de que a luta dele ajudou a mudar a realidade. É uma eficiente maneira de diluir, na causa coletiva, as angústias pessoais típicas da nossa condição humana, e de adiar o enfrentamento das questões internas.

O ato de fazer a diferença para o mundo traz embutida uma premissa de ação voltada para o ambiente externo ao indivíduo. Fica em segundo plano a ação do ser comprometida com a evolução pessoal, essa sim a verdadeira postura revolucionária.

É hora de entendermos que a grande contribuição que cada um tem a dar é investir no próprio crescimento. Uma sociedade saudável é formada por indivíduos que pensam bem, cuidam bem dos seus próximos e disseminam valores de justiça e tolerância. Para tudo isso funcionar efetivamente, vale muito mais a atuação no microcosmos da nossa rotina do que na ampla arena das ruas.     

A nossa família está na nossa esfera, a do nosso vizinho também. A melhor maneira de influenciarmos é pelo exemplo. Se queremos aumentar a bondade no mundo, temos que ser realmente bons às vistas dos nossos próximos. Isso vale mais que qualquer grito de guerra em praça pública.

A mudança efetiva é lenta e gradual. Investir no avanço da sociedade é plantar uma semente, regar todos os dias, zelar pela muda, e correr o risco de não ver, em vida, a árvore na plenitude. A alternativa, que é tentar acelerar o processo, frequentemente, torna as conquistas insustentáveis no tempo.

Este texto é uma ode à revolução na esfera pessoal. À contribuição singela e anônima que cada um pode dar para uma sociedade melhor. Talvez, a alguns, pareça pouco, mas essa é a contribuição possível para a esmagadora maioria de nós que nunca vai presidir sequer uma ilha.  É preciso abdicar do sonho de ser reconhecido como alguém que marcou o mundo.

Nada contra a praça pública. Contra erguer cartazes, entoar cânticos, cerrar os punhos. Mas muita coisa se perde no meio do grito da massa. Principalmente, se perde o essencial.

Tudo a favor da labuta diária do indivíduo consigo, da interminável e silenciosa busca pelo aperfeiçoamento das virtudes que nos fazem humanos.

Meu amigo Malaquias de Alarcão* ofereceu um exemplo vivo, que não posso deixar de citar aqui. Ainda que ele tenha acertado muito na forma, mas não se pode dizer o mesmo do conteúdo.

Esse admirável ser humano, por convicção e escolha própria, usou uma calça jeans pela primeira vez na vida há poucos anos, quando tinha não muito mais que seus 20. Todo o período de "resistência", como ele próprio se referia ao gesto, foi uma maneira de extravasar um sentimento não muito definido, mas muito presente, de crítica a algo na nossa sociedade que, para ele, tem na calça jeans um dos seus expoentes.

*Nome fictício

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