quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Conversa sobre elevador

Há alguns anos me intriga o espaço humano compreendido pelo elevador. No início, apesar de já ser uma curiosidade consciente, eu não sabia bem o que a motivava. Havia apenas a vontade louca de imergir cada vez mais e mais naquele tema. Suspeitava, de modo intuitivamente primitivo, que o elevador teria muito a dizer sobre nossa espécie.

Cheguei a propor, sem sucesso, na época da faculdade, um trabalho acadêmico meio sério sobre isso, para vocês verem até que ponto me inquietava. Além disso, um ou outro texto de ficção aqui no blog, como alguém já deve ter percebido, é ambientado no trajeto entre os andares de um prédio.

Hoje eu talvez já saiba de onde vem essa minha atração. Começa, provavelmente, pelo nome. O elevador nos leva para cima e para baixo, mas o substantivo designa apenas algo que sobe. Assim como a palavra ascensorista remete apenas a ascensão.

Imediatamente já se percebe que a sociedade não ignora que o elevador desce, mas prefere tomá-lo pela ótica do outro movimento, o de subida. Em nossa cultura, a tecnologia tem o papel de dobrar a natureza, e é exaltada por isso. Louvar o elevador pela descida seria banal, já que todo corpo, com mais ou menos dificuldade, desce. Fazer subir é o que dá a ele a aura digna de uma máquina, triunfante sobre o mundo natural.

No entanto, não se subverte a lógica da natureza impunemente, como talvez não suspeitassem os primeiros entusiastas da máquina, mas que agora já é óbvio para todos. Mesmo porque, nós também somos natureza, e qualquer alteração nela, mesmo as pequenas, não deixam de ser sentidas em nós mesmos e exigem um movimento de adaptação.

Se, para o pássaro, a ida do térreo para o segundo andar demanda um leve bater de asas, isso lhe sai naturalmente, como respirar. Para a gente, o natural seria caminhar morro acima. Entrar em um pequeno cubículo móvel, fechado, que nos transporta direto para as alturas sem que façamos esforço não foi previsto na constituição da nossa espécie.

Disso resulta que entrar no elevador é triunfo do homem sobre a natureza, mas também desperta um grau de estranheza em todos nós, ainda que inconscientemente. A nossa segunda pele, que é a da técnica, também é a pele artificial.

Daí o medo de alguns em entrar no elevador. Daí o mistério, o fetiche, a repulsa. É um mundo dentro do mundo, um microcosmo que acessamos toda vez que deixamos a nossa realidade para entrar na realidade construída.             

Se, de um lado, o elevador nos confronta com os limites de nossa natureza, de outro, impõe um desafio nada menor na esfera social: uma súbita e não facultativa convivência com um outro, seja ele familiar ou desconhecido.
 
O silêncio nas relações interpessoais é mal e penosamente suportado pela maioria. A falta de assunto ou de uma frase sabida para ser sacada quando dela se precisa causam uma aflição quase física. O elevador nos expõe a esse teste como nenhuma outra situação na vida social.

Mesmo os mais experimentados em distensionar o ambiente, piadistas e conversadores de amenidades em geral, enfrentam sérias dificuldades em um elevador. É o outro que nos assusta tanto? Ou é o nosso próprio eu, que se sente desnudado e vulnerável e se fecha em mil pétalas?

Nas questões do pensamento, existem os pontos de vista que dão perspectivas mais positivas que outros. Gosto deles. Ainda mais porque se tratam de escolhas, e não de determinismos. A pessoa pode optar por encarar um problema com mais leveza, dentro do possível. É na mente, em nenhum outro lugar, que o ser humano pode fazer face às inúmeras circunstâncias da vida que não estão em seu controle.

Deixei a parte que mais me emociona para o final. Não poderia concluir essas ideias sobre o elevador sem citar aqueles que dele fazem o melhor uso: os de coração aberto. Os incontáveis em todo o mundo que sabem que um dia vão encontrar no elevador o amor de suas vidas, um convite para o emprego dos sonhos ou o ídolo rock star. Enquanto isso não acontece, se satisfazem bastante com as músicas ambientais, os informes da última hora e aquele constrangimento tão inspirador quando vários desconhecidos juntos não sabem o que dizer um para o outro.

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