quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Um ocorrido aparentemente fora do roteiro

Um fenômeno crucial na história do planeta parece ter fugido do controle da natureza, que até aquela altura, conscientemente ou não, regia com equilíbrio tudo que se relacionava com a vida e o próprio funcionamento da Terra. O conjunto se harmonizava e pendia para o equilíbrio, mesmo com a ocorrência de eventuais fatores desestabilizadores, como vulcões ou dilúvios. Mas nada disso ameaçava a constância do todo, que atingia uma nova harmonia logo em seguida. Até que surgiu o elemento capaz de desarranjar para sempre a minuciosa trama tecida pela natureza: o ser humano.

Imagino o cenário há  2 milhões de anos. Começam a andar pela savana os primeiros hominídeos, nossos ancestrais. Talvez fossem muito mais parecidos com macacos do que com homens de fato. Os outros bichos devem ter pensado: "chegou mais um para a festa". No caso dos animais carnívoros, certamente devem ter se felicitado por mais aquela opção na dieta. Herbívoros, que são blasé na maior parte do tempo, podem ter lamentado a concorrência nos pomares, mas não muito.

Assim foi a convivência naqueles primórdios. Até que um dia um leão deve ter atentado para o fato de que aqueles primos dos macacos estavam ficando muito estranhos. "Ops! Ou eu muito me engano ou estão andando sobre os dois pés?"

Um intervalo de tempo pequeno, se comparado com os anos que levam para haver modificações profundas na natureza, separa os primeiros hominídeos do surgimento do homo sapiens. As espécies que nos antecederam, como o homem de neanderthal (que até conviveu com os primeiros sapiens), já agiam de forma até então inédita no ambiente ao redor. Desenvolveram as primeiras ferramentas e estratégias de grupo que desafiaram a lógica do jogo da natureza, mas foi com o homo sapiens, surgido há 200 mil anos, que uma espécie passou a controlar, de modo inapelável, o destino dela mesma e das demais.

Não será exagero dizer que o homem tem nas mãos até mesmo o futuro do planeta. Basta verificar que as ações dos humanos sobre o meio ambiente correm o risco de comprometer toda a natureza da forma que a conhecemos. Nunca nenhuma espécie, a não ser a nossa, teve o poder, muito próximo ao divino, de moldar o mundo à sua vontade.

O fato de sermos tão radicalmente inéditos e exclusivos na história dos seres, fugindo de todos os padrões e pervertendo a lógica absoluta da vida natural, me faz pensar que o surgimento do homem é um fato que escapou do controle da natureza. Ela teria, em sua autorregulação, permitido o surgimento de um ser que pudesse destruí-la? Parece muito heterodoxo para um sistema que se apoia em pesos e contrapesos minuciosamente definidos.

Que fique claro: não estou (ainda) atribuindo uma vontade consciente à natureza, ou sugerindo um deus por trás de tudo. Quero apenas dizer que, seja fruto do acaso ou da ação de alguém, o fato é que o mundo natural possui uma lógica própria, que sempre regulou o sistema com leis imutáveis, até que o homem surgisse para virar tudo do avesso.

O homem é o único ser que desenvolveu a razão e a consciência. É o único capaz de superar os instintos, criar uma civilização, expandir conhecimentos e aprimorar filosofias. Também só o homem pode, por exemplo, romper os limites da atmosfera e explorar o espaço.

Fico bastante estupefato diante de tantas excepcionalidades. Quanto mais penso no quão exótico é o homem dentro do sistema, mais sinto comichões em saber se há algum propósito na nossa existência.

O que parece, de uns séculos para cá, é que nossa espécie está empenhada em buscar respostas para esse mistério. As investigações da ciência são, em última análise, uma tentativa de desnudar o código da natureza e descobrir a origem e o mecanismo dos fenômenos da vida. Talvez os elementos decisivos para formarmos uma conclusão estejam lá fora, no Universo, o que torna ainda mais emocionantes as explorações espaciais.

Uma hipótese que às vezes me vem à mente: será que o destino do ser humano é desvendar o enigma da vida? Se assim for, tudo ao nosso redor é uma pista, e não um acaso. As estrelas estariam no céu não apenas para iluminar a noite, mas também para que soubéssemos ler nelas a sintaxe do Universo. O mesmo ocorreria com as chuvas, os insetos, os mares. Tudo apontaria para a essência, a matriz inicial.

Ou será que não há nada para desvendar? Nessa hipótese, o homem saiu como um ponto fora da curva da natureza por mero acidente. Desenvolveu a razão e a consciência mais ou menos como o tubarão aprimorou a barbatana.

Não haveria nada, nenhuma resposta, lá fora. Quando muito, algumas outras espécies parecidas com a nossa, subordinadas à mesma perplexidade diante do fato de terem surgido sem propósito algum, visitantes ocasionais de um Universo que não nos dá a mínima.

Já vi muitas pessoas dizerem: "pensar nisso tudo me deprime. Feliz é o meu cachorro, que vive a vida dele sem nenhuma inquietação existencial". Para essas pessoas, a falta de um propósito ou, havendo um propósito, a falta de saber qual seja ele, aperta o coração e causa desespero. Mas, eu pergunto, preciso saber qual é a fórmula da coca-cola e como age cada substância ali para sorver uma bem gelada numa tarde quente de novembro e me regozijar por isso?

Eu não acho que o cachorro seja mais feliz. Até porque, suspeito, a felicidade é um conceito, como o amor, e é preciso racionalizá-la para senti-la. Nada disso está disponível para o cachorro. Divertido mesmo, na minha opinião, é ter a consciência do absurdo que é estar vivo. É saber, dentro de nós, o quão inesperado é termos surgido aqui no planeta, da maneira como surgimos. É jogar um futebol de domingo dependurados no espaço e seguros oportunamente por uma atmosfera ocasional, sabendo que a natureza jamais previra o futebol.

Sobretudo, não tem como não ficarmos estupefatos diante da constatação de que somos, no mínimo, fruto do mais meticuloso dos acasos. No máximo, parte de um roteiro maior. As duas hipóteses fazem únicos cada dia que passamos aqui.

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