domingo, 10 de dezembro de 2017

O executivo

Alimentava os esquilos
E se vestia como eles
Banhava-se em qualquer regato
No vento se penteava
Sabia que a vida, em duração,
Era menos que nada
Não deixava de gozá-la

Viu nas lhamas largas franjas
Nos guaxinins, bigodes
Resvalou em velhos olmos
de musgo incrustados

Trabalhava numa empresa séria
Para onde levou sua flauta pan
Tocou rapsódias de outrora

Chefes deixaram pesados afazeres
Enlevados por comichões
Que também aos subordinados
Fizeram mexer os quadris

Quando viu, era verão
Bela primavera se passou!
O sol se punha tarde
Depois de chover uma hora inteira
Lembrou que no forno
Douravam alguns petiscos
Deu feliz Natal
Aos vizinhos na janela.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Seres da primavera 2017

Um homem desvirou um besouro que esperneava
O Universo achou graça.
Na verdade, o homem era o besouro e o besouro, o homem.

domingo, 13 de agosto de 2017

O papel oculto do homo sapiens

O homem é a única espécie em toda a história do planeta que subverteu sua condição original. Surgido como mais um mamífero na savana, estaria até hoje vivendo em grupos primitivos e ocupando o meio da cadeia alimentar se não tivesse revolucionado a própria existência.

Leões, elefantes, tubarões e todos os demais vivem exatamente como viviam nos primeiros dias dessas espécies. Não mudaram o modo de obter comida, de se relacionar com os indivíduos da mesma espécie ou das outras, de se acasalar, cuidar da cria ou lidar com enfermidades do corpo. Quem olhasse para um leão há 100 mil anos e depois agora, veria o mesmo bicho submetido ao mesmo sistema natural de sempre.

Com o ser humano é diferente. Apesar de ainda sofrermos imposições da natureza, como a necessidade de beber água ou a finitude do corpo, temos a capacidade de, por exemplo, detonar uma bomba e reduzir dramaticamente a vida na Terra. Nenhuma outra espécie chega nem perto disso.

Para mim, talvez a pergunta mais decisiva de todo o mistério da existência é: por que surgiu na Terra uma espécie tão exclusiva, inédita e poderosa na comparação com as demais? Em outras palavras, por que a natureza deu lugar a um bicho como o homem, único capaz de reinventá-la e, no limite, até de destruí-la por completo?

Acho que, com o que sabemos até aqui, algumas respostas são possíveis, ainda que nenhuma completamente satisfatória.

Acaso: o homem, seu desenvolvimento, sua inteligência, os avanços filosóficos e científicos, a chegada à lua, tudo não passa de mero acaso cósmico. Poderia ser o chimpanzé, o dinossauro, poderia ser ninguém, mas foi o homem. Não há nem uma causa nem um projeto para a vida humana. Surgimos aqui neste quinhão do espaço, neste ínfimo período da história universal, e talvez desapareçamos sem deixar muitos mais resquícios que os de um T-Rex.

Ato divino: foi um deus ou os deuses que criaram a vida humana. Por algum motivo, queriam que o homem se sobressaísse perante os outros animais e pudesse moldar a natureza. Talvez para espalhar na Terra as mensagens do céu ou para que as almas humanas passassem por um estágio aqui antes de ascender a outros planos. Independentemente do projeto reservado para a espécie, o importante nessa visão é saber que há um deus sobre nós e, portanto, há um sentido.

Papel oculto do homo sapiens: o planeta é um organismo inteligente e que se autorregula. Nada que ocorre na Terra não foi anteriormente planejado por ela. Sabendo que um dia iria precisar de um animal inteligente e suas ferramentas, a Terra criou as condições para que surgisse o homem e a inventividade humana. Talvez ela precise que a gente a defenda de futuras ameaças alienígenas. Talvez ela precise que a gente crie um escudo anti-asteróides. Ou ainda, ela sabe que está com os dias contados, e só o homem pode levar plantas e animais para colonizar outro planeta e formar uma nova Terra.

Uma observação final: Alguém pode alegar que a teoria da evolução explica o homo sapiens, já que a perpetuação de características genéticas mais bem adaptadas ao meio redundaria, naturalmente, na forma de vida inteligente e consciente que somos nós. Isso é verdade. Mas a questão aqui é: por que só o homem e nenhum outro animal? Por que a diferença tão abissal com relação a qualquer outra forma de vida na Terra? Por que fomos capazes de subverter a natureza inicial da espécie?

Se um dia houver uma resposta definitiva a essas perguntas, significará que muitas descobertas foram feitas e teremos novamente percorrido capítulos até então inimagináveis na história da humanidade.

                

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Aberta a temporada de ipês!



* Este texto nos foi enviado por Heloísa Fávaro!

Começo de primavera na Rússia de 1809, em "Guerra e Paz", de Tolstoi. O príncipe Andrei percebe que tudo voltou a ficar verde, menos o carvalho, que "se erguia como um velho monstro irritado e desdenhoso":

"' Primavera, amor, felicidade', parecia dizer o carvalho. ' Como vocês podem não estar fartos dessa ilusão tola, absurda e sempre repetida? A mesma coisa, sempre, e sempre a mesma ilusão! Não existe primavera, não existe sol, não existe felicidade. Olhem lá, onde estão os pinheiros sufocados, mortos, sempre sozinhos, e olhem também pra mim, eu arreganho os meus dedos quebrados, esfolados, onde quer que eles cresçam, nas costas, nos flancos. Do jeito que eles crescem, assim eu fico, e não acredito nas esperanças e ilusões de vocês.'" (p. 865, edição Cosacnaify)

Eu já vivi períodos de desprezo pelos ciclos. Mas depois aprendi que a gente pode ver beleza neles, de um jeito até meio juvenil.

Verão, eventual praia, cidade lotada de crianças, carnaval, volta às aulas, "agora o ano começa de vez", páscoa, dieta, Brasileirão, seca/ipês/frio, chuva/cigarras/calor, vácuo de agosto, temporada de futebol americano, temporada de séries, aniversários, natal, ano novo, verão, eventual praia...

Quando vim a Brasília, fiquei espantada quando vi que toda primeira chuva pós-seca vira manchete de jornal. Outra vedete dos noticiários são os ipês roxos, que surgem sempre em junho, os ipês amarelos, que aparecem em agosto, e os ipês brancos, que anunciam a primavera. Pra cada tipo de ipê, uma matéria. "Mas isso tem todo ano, ué. Isso não é notícia!"

"Páscoa e o preço exorbitante dos ovos? Vamos fazer matéria"

"Dia dos pais e a expectativa de aumento de vendas no comércio? Pauta pra amanhã"

E vi os mesmos temas se repetindo ano a ano e aquela angústia: "estou presa às mesmas matérias todo ano?"

"O que o público acha disso?"

O noticiário, que serve pra contar histórias da vida real, também ajuda a  pontuar os ciclos. Sim, as pessoas querem lembrar que o natal está chegando, mesmo sabendo que ele ocorre todos os dias no mesmo ano. Elas querem celebrar a primeira chuva depois da seca e querem ver isso na TV e conversar sobre isso na mesa do bar ou no elevador. As pessoas querem celebrar. Querem se lembrar. Querem ver a renovação na repetição.

No mesmo Guerra e Paz, o personagem volta a procurar o carvalho, nesse mesmo começo de primavera:

"(...) Não havia dedos retorcidos, nem feridas, nem o velho desgosto, nem a desconfiança - nada disso era visível. Através da casca centenária, áspera, sem raminhos, brotavam folhas jovens, viçosas, de tal modo que era quase impossível acreditar que aquele velho as havia gerado. 'Sim, é o mesmo carvalho', pensou o príncipe Andrei, e de repente lhe veio um sentimento gratuito e primaveril de alegria e renovação."
(p. 871)

O príncipe Andrei tem sido meu personagem preferido no "Guerra e Paz". Ele é apresentado pra gente de um jeito que nos obriga a não simpatizar com ele. Mas aí o Tolstoi faz esse trabalho lindo de entrar na cabeça do sujeito e mostrar que ali dentro as transformações estão ocorrendo na maior velocidade possível, chega a ser exaustivo.

O Andrei se permite mudar de ideia o tempo todo, muitas vezes nem por consciência própria - e vai dizer que com a gente é diferente? Ao contrário de outros personagens, ele muda, não por frivolidades, mas porque acredita genuinamente naquilo. E essa é a grande engrenagem pra verdadeiras mudanças internas e externas - embora as externas quase nem apareçam a olhos nus.

Acho que funciona assim. Ninguém precisa ser fortaleza, imutável, preso a valores e lógicas. Nem é natural. É pra isso que servem os anos e os ciclos, sempre se repetindo, pra dar conforto às nossas mudanças e lembrar que, não importa o que acontecer, sempre vai ter show do Roberto Carlos no fim do ano.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Coisas que gostaríamos de ver e, quem sabe, veremos, ou não

Esta é uma lista das coisas que gostaríamos de ver na vida, mas que, ou por serem fantasiosas demais, ou por não se mostrarem possíveis durante o período de existência da nossa geração, talvez não vejamos. O mesmo não digo das gerações dos nossos netos e bisnetos, que podem muito bem testemunhar:

 - O encontro de humanos com ETs.

- O teletransporte de pessoas como um dos principais meios de locomoção, principalmente nas viagens internacionais.

- O surgimento natural de novas e agradáveis espécies de animais.

- A máquina do tempo, que nos possibilitará visitar o passado como observadores, mas jamais modificá-lo.

- O refrigerante saboroso e que não faça mal à saúde.

- O filme Gladiador 2

- A levitação

- A institucionalização da quarta-feira como dia de folga em todas as semanas, para todas as categorias profissionais. 
   

Poema da fada

Eu sou uma fada
de hábitos sutis
vícios, nenhum
exíguos quadris


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Um ocorrido aparentemente fora do roteiro

Um fenômeno crucial na história do planeta parece ter fugido do controle da natureza, que até aquela altura, conscientemente ou não, regia com equilíbrio tudo que se relacionava com a vida e o próprio funcionamento da Terra. O conjunto se harmonizava e pendia para o equilíbrio, mesmo com a ocorrência de eventuais fatores desestabilizadores, como vulcões ou dilúvios. Mas nada disso ameaçava a constância do todo, que atingia uma nova harmonia logo em seguida. Até que surgiu o elemento capaz de desarranjar para sempre a minuciosa trama tecida pela natureza: o ser humano.

Imagino o cenário há  2 milhões de anos. Começam a andar pela savana os primeiros hominídeos, nossos ancestrais. Talvez fossem muito mais parecidos com macacos do que com homens de fato. Os outros bichos devem ter pensado: "chegou mais um para a festa". No caso dos animais carnívoros, certamente devem ter se felicitado por mais aquela opção na dieta. Herbívoros, que são blasé na maior parte do tempo, podem ter lamentado a concorrência nos pomares, mas não muito.

Assim foi a convivência naqueles primórdios. Até que um dia um leão deve ter atentado para o fato de que aqueles primos dos macacos estavam ficando muito estranhos. "Ops! Ou eu muito me engano ou estão andando sobre os dois pés?"

Um intervalo de tempo pequeno, se comparado com os anos que levam para haver modificações profundas na natureza, separa os primeiros hominídeos do surgimento do homo sapiens. As espécies que nos antecederam, como o homem de neanderthal (que até conviveu com os primeiros sapiens), já agiam de forma até então inédita no ambiente ao redor. Desenvolveram as primeiras ferramentas e estratégias de grupo que desafiaram a lógica do jogo da natureza, mas foi com o homo sapiens, surgido há 200 mil anos, que uma espécie passou a controlar, de modo inapelável, o destino dela mesma e das demais.

Não será exagero dizer que o homem tem nas mãos até mesmo o futuro do planeta. Basta verificar que as ações dos humanos sobre o meio ambiente correm o risco de comprometer toda a natureza da forma que a conhecemos. Nunca nenhuma espécie, a não ser a nossa, teve o poder, muito próximo ao divino, de moldar o mundo à sua vontade.

O fato de sermos tão radicalmente inéditos e exclusivos na história dos seres, fugindo de todos os padrões e pervertendo a lógica absoluta da vida natural, me faz pensar que o surgimento do homem é um fato que escapou do controle da natureza. Ela teria, em sua autorregulação, permitido o surgimento de um ser que pudesse destruí-la? Parece muito heterodoxo para um sistema que se apoia em pesos e contrapesos minuciosamente definidos.

Que fique claro: não estou (ainda) atribuindo uma vontade consciente à natureza, ou sugerindo um deus por trás de tudo. Quero apenas dizer que, seja fruto do acaso ou da ação de alguém, o fato é que o mundo natural possui uma lógica própria, que sempre regulou o sistema com leis imutáveis, até que o homem surgisse para virar tudo do avesso.

O homem é o único ser que desenvolveu a razão e a consciência. É o único capaz de superar os instintos, criar uma civilização, expandir conhecimentos e aprimorar filosofias. Também só o homem pode, por exemplo, romper os limites da atmosfera e explorar o espaço.

Fico bastante estupefato diante de tantas excepcionalidades. Quanto mais penso no quão exótico é o homem dentro do sistema, mais sinto comichões em saber se há algum propósito na nossa existência.

O que parece, de uns séculos para cá, é que nossa espécie está empenhada em buscar respostas para esse mistério. As investigações da ciência são, em última análise, uma tentativa de desnudar o código da natureza e descobrir a origem e o mecanismo dos fenômenos da vida. Talvez os elementos decisivos para formarmos uma conclusão estejam lá fora, no Universo, o que torna ainda mais emocionantes as explorações espaciais.

Uma hipótese que às vezes me vem à mente: será que o destino do ser humano é desvendar o enigma da vida? Se assim for, tudo ao nosso redor é uma pista, e não um acaso. As estrelas estariam no céu não apenas para iluminar a noite, mas também para que soubéssemos ler nelas a sintaxe do Universo. O mesmo ocorreria com as chuvas, os insetos, os mares. Tudo apontaria para a essência, a matriz inicial.

Ou será que não há nada para desvendar? Nessa hipótese, o homem saiu como um ponto fora da curva da natureza por mero acidente. Desenvolveu a razão e a consciência mais ou menos como o tubarão aprimorou a barbatana.

Não haveria nada, nenhuma resposta, lá fora. Quando muito, algumas outras espécies parecidas com a nossa, subordinadas à mesma perplexidade diante do fato de terem surgido sem propósito algum, visitantes ocasionais de um Universo que não nos dá a mínima.

Já vi muitas pessoas dizerem: "pensar nisso tudo me deprime. Feliz é o meu cachorro, que vive a vida dele sem nenhuma inquietação existencial". Para essas pessoas, a falta de um propósito ou, havendo um propósito, a falta de saber qual seja ele, aperta o coração e causa desespero. Mas, eu pergunto, preciso saber qual é a fórmula da coca-cola e como age cada substância ali para sorver uma bem gelada numa tarde quente de novembro e me regozijar por isso?

Eu não acho que o cachorro seja mais feliz. Até porque, suspeito, a felicidade é um conceito, como o amor, e é preciso racionalizá-la para senti-la. Nada disso está disponível para o cachorro. Divertido mesmo, na minha opinião, é ter a consciência do absurdo que é estar vivo. É saber, dentro de nós, o quão inesperado é termos surgido aqui no planeta, da maneira como surgimos. É jogar um futebol de domingo dependurados no espaço e seguros oportunamente por uma atmosfera ocasional, sabendo que a natureza jamais previra o futebol.

Sobretudo, não tem como não ficarmos estupefatos diante da constatação de que somos, no mínimo, fruto do mais meticuloso dos acasos. No máximo, parte de um roteiro maior. As duas hipóteses fazem únicos cada dia que passamos aqui.